Violência contra a mulher: por que o ES ainda enfrenta desafios na proteção às vítimas


Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

O Espírito Santo chega às Eleições 2026 com 2.990.490 eleitores aptos a votar. Desse total, 1.578.618 são mulheres, o equivalente a 53% do eleitorado capixaba. Ao mesmo tempo em que representam a maioria dos eleitores do Estado, milhares de mulheres continuam enfrentando um dos problemas mais persistentes da sociedade: a violência doméstica e familiar.

Entre janeiro e agosto deste ano, foram registrados 19.552 casos de violência doméstica no Espírito Santo, o que representa uma média de 80 casos por dia. Os dados do Observatório de Segurança Pública, da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), mostram que 23 mulheres foram vítimas de feminicídio até o 31 de agosto no território capixaba.

Os números ajudam a dimensionar o tamanho do problema, mas não contam sozinhos toda a história. Por trás de cada ocorrência existem fatores que vão desde o medo e a dependência econômica até dificuldades de acesso aos serviços públicos, diferenças na estrutura disponível nos municípios e uma cultura marcada pelo machismo e pela desigualdade nas relações.



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Relatório Estatístico 2026
Feminicídios no Espírito Santo

Raio-X detalhado dos casos registrados no ES

23
Vítimas Totais

Quem é o Agressor?
Companheiro9 (39,1%)
Ex-namorado4 (17,4%)
Namorado2 (8,7%)
Conhecido1 (4,3%)
Enteado1 (4,3%)
Ex-companheiro1 (4,3%)
Filho1 (4,3%)
Irmão1 (4,3%)
Marido1 (4,3%)
Não informado1 (4,3%)
Parente1 (4,3%)
73,9% dos crimes foram cometidos por parceiros ou ex-parceiros íntimos (17 casos no total).

Distribuição por Municípios
Serra5 casos
Linhares3 casos
Cachoeiro de Itapemirim2 casos
Vitória2 casos
1 caso cada (11 municípios):
Aracruz
Cariacica
Castelo
Guarapari
Jaguaré
Montanha
Nova Venécia
Pinheiros
Piúma
Ponto Belo
São José do Calçado
A Serra concentra 21,7% do total de feminicídios registrados no estado.

Evolução Mensal
Maio9 mortes
Agosto4 mortes
Março4 mortes
Janeiro3 mortes
Julho2 mortes
Abril1 morte
O mês de Maio teve uma concentração alarmante, correspondendo a 39,1% das mortes do ano.

Dias da Semana
SEG
6
TER
2
QUA
2
QUI
1
SEX
5
SÁB
5
DOM
2
Segunda, Sexta e Sábado acumulam 16 das 23 mortes (69,6%), evidenciando o risco ampliado nos fins de semana e inícios de semana.

Horários Críticos
14h
3 registros
21h
3 registros
22h
3 registros
23h
3 registros

Para especialistas e representantes das instituições que atuam diretamente na proteção às mulheres ouvidas nesta reportagem, o Espírito Santo avançou nos últimos anos. A legislação foi ampliada, mecanismos de proteção foram criados e órgãos públicos passaram a atuar de maneira mais integrada.

Delegadas, promotoras, defensoras públicas, integrantes do Judiciário e pesquisadoras convergem em um ponto: o problema não se resolve apenas com novas leis. A dificuldade está também em fazer com que os mecanismos existentes funcionem de maneira integrada, rápida e acessível em todo o território capixaba.

O combate à violência contra a mulher foi um dos temas mais votados pelos leitores do Folha Vitória em enquete realizada no portal sobre quais deveriam ser as prioridades da nova gestão do governo do Estado.

Confeiteira tem dente arrancado pelo ex-marido

A violência deixa marcas que levam tempo para serem curadas. Fátima (nome fictício), de 45 anos, é confeiteira e foi agredida pelo então marido há 3 anos. A agressão ocorreu dentro do local de trabalho da vítima, em Cariacica.

Fátima relata que teve o dente arrancado na raiz depois de ser atingida na boca por um jarro que foi arremessado pelo agressor durante a briga. Segundo ela, o homem chegou bêbado na confeitaria após passar dois dias na rua sem dar notícias para a vítima.

“Eu ainda sofro muito, porque acabou com minha estrutura dental. Eu coloquei um dente provisório, mas, com o passar do tempo, ele soltou”, revelou ela.

A confeiteira relata que os policiais a acompanharam até o hospital e depois a levaram até a delegacia, onde ela registrou ocorrência e já saiu com uma medida protetiva contra o agressor. O suspeito foi preso no dia seguinte.

“Ele continua preso. Ele saiu de tornozeleira eletrônica, mas continuava a me ameaçar e voltou para o regime fechado”, conta Fátima.

Combate à violência contra a mulher é desafio cultural

Dados do Observatório da Secretaria de Segurança Pública (Sesp) mostram que houve uma queda no número de feminicídios na comparação entre os anos de 2024 e 2025. A quantidade de casos caiu de 41 para 35 no Estado.

Para a delegada Natália Tenório, da Gerência de Proteção à Mulher da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp), o principal obstáculo atualmente não está na ausência de legislação.

Segundo ela, o país avançou na criação de leis e no fortalecimento das instituições, mas ainda enfrenta um problema cultural relacionado à forma como homens e mulheres são compreendidos dentro de relações marcadas por poder e domínio.

“Nós precisamos trabalhar na desconstrução desses valores, construindo novos valores de respeito e equidade”, afirmou Natália Tenório. 

Segundo a delegada, a violência é alimentada por uma lógica patriarcal de poder e domínio. Por isso, a resposta precisa ultrapassar a atuação policial e alcançar espaços como a família, a escola, a cultura e os meios de comunicação.

Delegada Natália Tenório (Foto: Acervo pessoal)

“Nós precisamos naturalizar as mulheres numa posição de igualdade”, disse Natália. “Elas têm o direito de escolher as relações em que querem ficar ou romper.” 

A defensora pública Fernanda Prugner, coordenadora de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Espírito Santo (DPES), também aponta a necessidade de mudança cultural.

“O maior desafio atualmente enfrentado é a promoção de uma mudança cultural profunda na nossa sociedade. A sociedade ainda enfrenta a perpetuação de estereótipos de gênero e do machismo estrutural, que naturalizam o ciclo de abusos”, analisou.

Misoginia nas redes: delegada alerta para influência da “machosfera” entre jovens

Natália Tenório alertou para o crescimento de conteúdos misóginos nas redes sociais, em ambientes classificados como “machosfera”. Ela citou grupos identificados como incels (celibatários involuntários) e a cultura red pill (que prega que o homem deve manter a mulher submissa) entre adolescentes e jovens.

A delegada considera que esse cenário exige uma resposta urgente. Ela defende a criminalização da misoginia para responsabilizar quem propaga conteúdos de ódio contra mulheres.

É importante que a gente consiga lidar com esse desafio, falar de uma maneira exaustiva sobre isso também, para que a gente consiga frear esse avanço da misoginia, mas é muito importante que a gente criminalize a misoginia.

Natália Tenório, delegada da Gerência de Proteção à Mulher da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp)

A professora Rosely Silva Pires, coordenadora do programa de pesquisa e extensão Fordan, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), também citou a “machosfera” como desafio. Segundo ela, conteúdos de ódio contra mulheres são produzidos e monetizados nas plataformas digitais.

A pesquisadora alertou para violências por redes sociais, aplicativos de mensagens e ferramentas de inteligência artificial.

“Os estudantes tiram a roupa delas através da inteligência artificial, cria um corpo que não é um corpo dessa menina e começa a circular a imagem dessa menina nua”, exemplifica a professora.

Sem renda e moradia, mulheres enfrentam mais dificuldades para sair de relações abusivas no ES

A autonomia financeira aparece como um dos pontos centrais da discussão sobre proteção. A falta de renda, emprego, moradia e acesso à educação pode dificultar a saída de uma relação abusiva.

Por essa razão, a promotora de Justiça Cristiane Esteves Soares, coordenadora do Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (Nevid) do Ministério Público do Espírito Santo (MPES), destaca que denunciar não é uma decisão simples.

Muitas mulheres têm medo do autor da violência, dependem economicamente dele, têm filhos, estão isoladas ou sofrem ameaças. Em muitos casos, existe também violência psicológica e um processo de destruição da autoestima que dificulta a percepção de que aquela relação é abusiva.

Cristiane Esteves Soares, coordenadora do Nevid

Segundo ela, uma mulher que tem acesso à educação, trabalho, renda, moradia e informação possui mais condições de romper ciclos de violência.

A professora Rosely Silva Pires cita dificuldades para conseguir pensão alimentícia, aluguel social, emprego e acesso à educação.

“É um movimento burocrático da Justiça que não ajuda a salvar a vida dessas mulheres, porque se essas mulheres têm dependência financeira, elas precisam do apoio do Estado, das políticas públicas, para conseguir sobreviver sem o agressor“, destaca.

Natália Tenório explica que o homem impedir ou dificultar que a mulher trabalhe ou estude pode ser utilizado como mecanismo de controle. “Quanto mais elas dependem, mais controle esses homens exercem.”

Além disso, a delegada alertou para a subnotificação. Segundo ela, muitas vítimas de feminicídio não buscaram ajuda policial antes do crime.

Mulheres ainda enfrentam obstáculos para acessar rede de proteção no Espírito Santo

As especialistas reconhecem que houve avanços na rede de proteção. No entanto, apontam que os serviços ainda não atendem toda a demanda existente no Estado.

Na prática, isso significa fortalecer a rede de proteção, ampliar a articulação entre os serviços e garantir que as mulheres consigam acessar direitos como medidas protetivas, assistência social, atendimento psicológico, orientação jurídica, moradia e mecanismos de autonomia financeira.

A promotora de Justiça Cristiane Esteves Soares, coordenadora do Nevid, afirmou que a integração entre os serviços é um dos principais gargalos. Segundo ela, a mulher não deve precisar repetir a própria história em diferentes instituições e descobrir sozinha qual serviço deve procurar.

“Precisamos de uma rede que converse, tenha protocolos definidos e identifique rapidamente situações de maior risco”, disse a promotora.

A defensora pública Fernanda Prugner, coordenadora de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher da Defensoria Pública do Espírito Santo, também aponta diferenças importantes entre as regiões do Estado.

Segundo ela, enquanto municípios da Grande Vitória contam com uma estrutura mais articulada, incluindo Centros de Referência de Atendimento às Mulheres em Situação de Violência, delegacias especializadas, varas especializadas, Casa Abrigo e mecanismos tecnológicos de proteção, essa realidade não se repete de forma uniforme no interior.

“Em diversos municípios menores do Estado, a infraestrutura ainda é escassa, e a capacidade de acolhimento ainda é desproporcional ao volume da demanda.”

A defensora ainda cita como problema a necessidade de formação permanente dos profissionais.

Defensora pública Fernanda Prugner (Foto: Divulgação / Defensoria Pública do Espírito Santo)

Medidas protetivas ganham agilidade no ES, mas descumprimento persiste

Quando uma mulher pede uma medida protetiva, a velocidade da resposta pode ser determinante. De acordo com informações do Tribunal de Justiça do Espírito Santo, a legislação estabelece prazo de até 48 horas para que o juiz decida sobre a medida depois que o pedido chega ao gabinete.

O TJES informa que o tempo médio de apreciação das medidas protetivas foi reduzido para dois dias. Segundo o tribunal, 50% das medidas são apreciadas no mesmo dia e outras 31% em um dia, o que significa que 81% são analisadas em até 24 horas.

O caminho mais comum começa com um registro de ocorrência na Polícia Civil ou com o encaminhamento feito pela Polícia Militar. A medida também pode ser requerida pelo Ministério Público, advogado, Defensoria Pública ou pelo próprio juiz, caso seja identificado risco.

Apesar da redução no tempo de análise, o próprio Tribunal aponta o descumprimento das medidas protetivas como um dos principais desafios. Foram registrados 2.929 casos de descumprimento em 2025 e 1.855 em 2026, segundo os dados fornecidos pelo TJES.

De acordo com o Conselho Nacional de Justiça (CNJ), foram concedidas 9.478 medidas protetivas para mulheres vítimas de violência no Espírito Santo no primeiro semestre deste ano.

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👩‍🦱
1.5milhão
de eleitoras no ES

🗳️
53%
do eleitorado do estado

📄
9.478
medidas protetivas concedidas

🚨
1.855medidas
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Para a professora Rosely Silva Pires, coordenadora do programa de pesquisa e extensão Fordan, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), a violência contra a mulher não termina quando a medida é concedida.

“O descumprimento da medida protetiva hoje é altíssimo, inclusive, pelas redes sociais. Quando esse agressor manda uma mensagem pelo WhatsApp, ele está descumprindo medida protetiva”, destacou.

Violência contra a mulher: como preparar a rede que acolhe a vítima antes da denúncia

A coordenadora do programa de pesquisa e extensão Fordan, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), chama atenção para um aspecto importante: muitas mulheres procuram ajuda antes de chegar às instituições oficiais.

Segundo ela, a primeira denúncia muitas vezes acontece dentro da própria família, entre amigos ou em instituições religiosas. No entanto, nem sempre esses ambientes estão preparados para reconhecer a violência e encaminhar corretamente a vítima.

A delegada Natália Tenório reforça que familiares e amigos apoiem a vítima a procurar a polícia para denunciar a violência.

“É muito importante que se aproxime dessa pessoa e se disponha a conversar sobre o que ela está vivendo, porque faz diferença. Se você percebe que alguém está sofrendo violência, se coloca à disposição para conversar.”

Em situações em que há receio de procurar diretamente a polícia, ela cita o 181, Disque-Denúncia, que permite comunicar a existência de uma situação de violência com garantia de anonimato.

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Aprenda a identificar

10 formas de violência contra a mulher

A agressão nem sempre deixa marcas visíveis. Reconhecer os diferentes tipos é o primeiro passo para romper o ciclo — e pedir ajuda.

Hoje muitas mulheres já compreendem que violência não é só física.



Delegada Natália Tenório

01–10

Os tipos de violência

1

Tipo 01

Violência psicológica

A violência psicológica é caracterizada quando uma mulher sofre ações que causam dano emocional, prejudicam sua autoestima ou limitam sua liberdade e autonomia. Ela pode aparecer por meio de ameaças, humilhações, manipulação, isolamento, chantagem, ridicularização ou controle das decisões da vítima.

2

Tipo 02

Violência sexual

A violência sexual não acontece apenas em casos de estupro. Ela também pode aparecer em situações em que a mulher é pressionada ou constrangida a manter relações ou práticas sexuais contra sua vontade.

3

Tipo 03

Assédio e importunação sexual

O assédio sexual é quando existe uma relação de hierarquia ou ascendência, como entre chefe e funcionária ou professor e aluna. Já a importunação sexual acontece quando alguém pratica um ato de natureza sexual sem consentimento, mesmo sem relação de poder entre as pessoas.

4

Tipo 04

Violência patrimonial

A violência patrimonial é a tentativa de controlar ou retirar bens, recursos financeiros ou objetos da mulher. Pode envolver destruir objetos pessoais, tomar documentos, controlar o salário ou impedir o acesso ao próprio dinheiro.

5

Tipo 05

Violência moral

A violência moral envolve ataques à honra da mulher, como ofensas, acusações falsas e exposição que prejudiquem sua reputação. Ela pode ocorrer por meio de crimes como calúnia, difamação e injúria.

6

Tipo 06

Violência vicária

A violência vicária acontece quando o agressor utiliza pessoas ou elementos importantes para a mulher como forma de causar sofrimento. Os casos mais comuns envolvem filhos, mas também podem atingir outras pessoas próximas ou até animais de estimação.

7

Tipo 07

Perseguição ou stalking

O crime de perseguição ocorre quando alguém persegue a vítima de forma repetida, invadindo sua privacidade, restringindo sua liberdade ou causando perturbação. A prática ficou mais conhecida após ser incluída no Código Penal.

8

Tipo 08

Violência digital

A violência digital reúne práticas de agressão, controle ou exposição realizadas no ambiente virtual. Pode envolver ataques, divulgação de imagens sem autorização, manipulação de fotos, ameaças, golpes e uso de inteligência artificial para prejudicar a vítima.

9

Tipo 09

Misoginia e discurso de ódio contra mulheres

A misoginia é o desprezo, o ódio ou a inferiorização das mulheres. Segundo a delegada, o crescimento desse tipo de discurso, principalmente entre adolescentes e no ambiente virtual, representa um dos principais desafios atuais.

10

Tipo 10

Violência por terceiros

Caracterizada quando o agressor utiliza outra pessoa para ameaçar, controlar ou perseguir a vítima. Um exemplo é pedir que amigos ou familiares enviem mensagens, façam cobranças ou monitorem a rotina da mulher. Mesmo utilizando outra pessoa, o autor da violência pode ser responsabilizado pelos atos praticados.

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Patrulha Maria da Penha amplia acompanhamento de mulheres com medidas protetivas no ES

A Patrulha Maria da Penha acompanha mulheres com medidas protetivas que solicitam inclusão no programa. A Polícia Militar realiza visitas tranquilizadoras para essas vítimas.

Segundo a delegada Natália Tenório, da Gerência de Proteção à Mulher da Sesp, já foram realizadas mais de 12 mil visitas em 2026. O número representa aumento de 25% em relação ao mesmo período de 2025.

“A proposta desse programa com as visitas é gerar essas mulheres uma tranquilidade maior ao realizarem esse trabalho de fiscalizar essas medidas”, explica.

Viatura da Patrulha Maria da Penha (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

Além disso, a delegada afirma que a Central Teleflagrante também faz parte da rede de proteção à mulher e possui três assistentes sociais. Elas encaminham mulheres atendidas durante os plantões para serviços especializados de seus municípios.

Segundo a delegada, mais de 6 mil mulheres foram encaminhadas à rede municipal em 2026. O volume representa aumento de 15% na comparação com o mesmo período do ano anterior.

A Defensoria Pública possui unidades em 29 comarcas e também oferece atendimento remoto para mulheres que precisam de assistência jurídica. Entre os serviços está o Click Delas, canal digital para solicitação de Medidas Protetivas de Urgência, sem necessidade de boletim de ocorrência.

O Fordan também possui um aplicativo por onde a vítima pode registrar boletim de ocorrência contra o agressor.

Professora Rosely e os integrantes do Fordan Victor Hugo Pereira Silva e Thiago Moura Baiense que participaram de desenvolvimento de aplicativo (Foto: Thiago Soares/ Folha Vitória)

Tecnologia para impedir aproximação de agressores de mulheres em risco extremo

Lançado no final de 2025, o programa Mulher Segura atende vítimas consideradas em risco extremo, por decisão judicial. Atualmente, 15 mulheres estão ativas no programa, segundo a delegada Natália Tenório.

O homem monitorado usa tornozeleira eletrônica por determinação da Justiça, enquanto que a mulher recebe um smartphone conectado ao equipamento. Desta forma, a tecnologia permite a estabelecer de zonas de afastamento para manter o agressor longe da vítima.

O monitoramento dos homens é feito 24 horas por dia por 17 policiais penais na central da Secretaria de Estado da Justiça (Sejus). Caso o homem ultrapasse a distância determinada judicialmente, protocolos de monitoramento podem ser acionados.

“Caso ele viole o espaço que ele não pode adentrar, a Polícia Penal em contato com a Secretaria de Segurança e promove o encaminhamento de uma viatura. A viatura que está mais próxima vai ao encontro da mulher para protegê-la e depois a captura dele”, explica.

Central de monitoramento de tornozeleira eletrônica (Foto: Thiago Soares/Folha Vitória)

Segundo Natália, um homem monitorado pelo programa foi preso em junho deste ano após descumprir a ordem da Polícia Penal.

Além disso, a mulher incluída no programa também recebe reforço no acompanhamento da Patrulha Maria da Penha e a rede municipal é comunicada para oferecer os serviços disponíveis.

35 municípios já têm programa para homens envolvidos em casos de violência doméstica no ES

A prevenção também passa pela atuação sobre os autores de violência. O programa Homem que é Homem, segundo a Sesp, está presente em 35 municípios e promove grupos reflexivos com homens que tiveram problemas policiais relacionados à violência doméstica.

Os ciclos têm oito encontros. A proposta inclui discussões sobre masculinidade, comunicação não violenta, paternidade e os fatores relacionados à violência.

Para a promotora Cristiane Soares, a responsabilização deve fazer parte de uma estratégia mais ampla.

“As políticas mais efetivas são aquelas que trabalham de forma integrada: prevenção, proteção da mulher, responsabilização do autor e promoção da autonomia feminina.”

Promotora de Justiça Cristiane Esteves Soares (Foto: Divulgação / MPES)

Violência doméstica: 19 mil casos e 23 feminicídios desafiam futuro governo do ES

Com mais de 19 mil registros de violência doméstica e 23 feminicídios apenas nos oito primeiros meses de 2026, o desafio para o Espírito Santo vai além de ampliar mecanismos já existentes.

Para Cristiane Esteves, a violência contra a mulher precisa ser tratada como uma política de Estado, com planejamento de longo prazo e integração entre diferentes áreas do poder público.

“Precisamos identificar situações de risco antes que elas evoluam para episódios mais graves”, afirmou.

Fernanda Prugner reforça que não basta aumentar penas. É necessário promover uma transformação cultural e fortalecer políticas preventivas.

“Com a educação em direitos atuando como pilar central desse processo, torna-se possível romper em definitivo o ciclo de violência.”

A professora Rosely Pires, por sua vez, chama atenção para a necessidade de orçamento, estrutura e prioridade política para que as medidas saiam do papel.

Onde denunciar a violência contra a mulher

A mulher não precisa esperar uma agressão física para procurar ajuda. Situações de ameaça, perseguição, controle e outras formas de violência já podem ser denunciadas. Veja abaixo os canais para denúncia:

  • Polícia Militar (190): em casos de emergência e risco imediato.
  • Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam): em casos de emergência e risco imediato.
  • Ligue 180 – Central de Atendimento à Mulher: para informações e orientação sobre direitos e serviços.
  • Disque-Denúncia 181: canal para denúncias de forma anônima.
  • Click Delas: canal digital da Defensoria Pública do Espírito Santo para solicitação de Medidas Protetivas de Urgência, sem necessidade de boletim de ocorrência.
  • Aplicativo do Fordan: permite registrar boletim de ocorrência contra o agressor.



FONTE: Folha Vitória


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