Sonhos frustrados votam


Em uma análise do primeiro turno o marqueteiro Igor Paulin, resumiu em uma frase um conceito que eu sempre coloco na mesa quando se fala de comunicação política: “O governo falava de terras raras e soberania, o eleitor quer saber da picanha.”

Isso não é sobre picanha. Mas demonstra a distância entre o que a política fala e o que as famílias vivem. Relatórios mostram números positivos da economia. Mas o eleitor não vive, nem entende o relatório. Ele mora na fila da consulta, na farmácia sem o remédio, na creche sem vaga.

A antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, professora da Universidade de Dublin, ajuda a entender o que está por trás disso. Ela explica que as redes sociais provocaram uma revolução na capacidade de sonhar. Nunca tantas pessoas imaginaram tanto. O influenciador que diz “eu também pegava ônibus” e hoje mostra carro importado faz o sonho parecer próximo, possível, quase garantido.

Isso é bom. Sonhar é bom.

O problema acontece quando o sonho não condiz em nada com a realidade. Quem não alcança a vida prometida se culpa e acumula frustrações. E frustrações, mais cedo ou mais tarde, viram ressentimento. Ressentimento vira voto emocional deixando o que resta de racional de lado.

Rosana faz uma observação que considero preciosa para quem faz política: muitas vezes, a raiva do Estado é, na verdade, a dor pela ausência do Estado. O cidadão que diz não precisar de governo é, muitas vezes, quem mais sentiu falta dele em algum momento.

Aqui está uma lição para a comunicação política. Não adianta debochar desses sonhos nem de tratá-los como consumismo fútil. Para quem foi invisível a vida inteira, um objeto de marca comprado é uma forma de ser visto. Proporciona o sentimento de pertencimento, de dignidade. Eu também posso e pertenço.

O eleitor quer ouvir sobre a vida dele. Gosto de dizer que ele precisa ouvir sobre o metro quadrado dele. Quer saber quando o posto vai ter médico. Quando a creche abre vaga. Como conseguir crédito para o seu pequeno negócio. Como ter carteira assinada, férias e décimo terceiro. Folga aos finais de semana. Quer saber o que a obra entregue vai proporcionar de concreto: a UPA vai ter médicos? Remédios? A rua asfaltada tem luz?

O Legislativo tentando se adaptar à mudança de velocidade das informações na opinião pública, também falha. Boa parte do debate parlamentar está reativo. Propostas são colocadas às pressas para suprir uma demanda da sociedade, que muitas vezes ainda nem foi amadurecida. Corre atrás do assunto que viralizou, do escândalo da semana, da polêmica do influenciador, e as vezes por incrível que pareça, viram leis. Reage à opinião pública em vez de propor caminhos para a sociedade, de forma estruturada, consciente e contínua.

Enquanto isso, dezenas de milhões de brasileiros buscam renda extra, sem orientação e à mercê de quem lucra vendendo promessa de riqueza. Onde estão os projetos de formação para o empreendedor popular? De crédito justo para a mãe solo que quer trabalhar de casa? De proteção para o trabalhador que vive de bico?

Rosana alerta, com razão, que nem tudo é problema de comunicação. Há uma mudança profunda na forma como as pessoas enxergam o próprio esforço e o papel do Estado. Mas a comunicação é a ponte. E ponte mal construída não leva ninguém a lugar nenhum.

Quem tem mandato precisa fazer duas coisas ao mesmo tempo: propor políticas que conversem com a aspiração real das pessoas e comunicar essas entregas na linguagem de quem acorda cedo. Sem jargão. Sem números abstratos. Com histórias concretas.

O eleitor não quer discurso sobre o futuro do país. Quer saber se o futuro dele cabe nos planos de quem pede o seu voto.



FONTE: Folha Vitória


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