escândalo alterou cenário eleitoral entre Lula e Flávio?
A nova pesquisa de intenção de votos para presidente da República realizada pelo instituto Futura Inteligência após as revelações do áudio do senador Flávio Bolsonaro (PL) para o banqueiro Daniel Vorcaro e do encontro entre os dois, apresentou um cenário preocupante para o parlamentar e bastante favorável para o presidente Lula (PT).
A comparação entre esta nova pesquisa, realizada entre os dias 15 e 20 deste mês, e a anterior – captada na semana retrasada, entre os dias 4 e 8 – mostrou que o desempenho de Flávio caiu, que Lula avançou e que os demais concorrentes não registraram mobilidade significativa na intenção de votos.
A leitura, até o momento, é que o escândalo impactou negativamente a pré-campanha de Flávio, mas não a ponto de mudar a tendência de uma disputa polarizada entre Lula e a família Bolsonaro.
Lula cresceu acima da margem de erro em todos os cenários testados – o Presidente melhorou sua imagem até na rejeição –, mas isso não significa que ele estaria herdando os votos perdidos por Flávio.
Não se pode ignorar que Lula já vinha, segundo os levantamentos anteriores, numa linha ascendente de recuperação. O escândalo do áudio de Flávio na pré-campanha de Lula estaria servindo como um impulso, acentuando assim uma tendência que já se desenhava.
Flávio perde capital, mas continua competitivo
Em todos os cenários testados – espontâneo e estimulado de 1º turno, estimulado de 2º turno e rejeição – Flávio perdeu capital político após seu nome ser envolvido com o escândalo do Banco Master.
No dia 13 de maio, veio a público um áudio em que o senador negocia com Daniel Vorcaro o repasse de 24 milhões de dólares para financiar o filme “Dark Horse”, que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro.
No dia 19, uma nova revelação: Flávio teve um encontro com o banqueiro após sua primeira prisão. Os dois episódios criaram uma crise na pré-campanha e desorganizaram o campo aliado ao senador, colocando em xeque o discurso anticorrupção.

O desgaste à imagem de Flávio foi notório e refletiu nas pesquisas. Mas não foi um impacto grandioso, como esperava a oposição. Vamos aos números:
No cenário espontâneo – quando o eleitor indica em quem pretende votar sem receber uma lista de nomes –, Flávio caiu de 27,8% para 24,9%, uma queda de 2,9 pontos percentuais (um pouco acima da margem de erro, que é de 2,2 pontos).
Já no cenário estimulado do 1º turno – quando a lista de nomes é apresentada – a queda é quase que insignificante: meio ponto percentual. Flávio foi de 36,1%, registrado no início do mês, para 35,6%.
Quando o levantamento leva em conta a rejeição, há uma inversão entre os mais rejeitados. Flávio assumiu a dianteira, com 44,7%, porém, o número representa apenas 0,9 ponto percentual a mais da rejeição registrada no levantamento passado.
Ou seja, a rejeição ao senador aumentou em aproximadamente 1% após a revelação do escândalo, o que significa que ele ainda mantém uma base consolidada, de eleitores fiéis ao bolsonarismo – que representariam, segundo pesquisas e analistas políticos, cerca de 30% do eleitorado.
Inversão de cenário no 2º turno já era tendência
No cenário de segundo turno, a queda de Flávio foi expressiva e, pela primeira vez na série de pesquisas da Futura, que começou em março, o senador aparece atrás do presidente Lula.
No levantamento feito no início deste mês, Flávio estava à frente com 46,9% contra 44,4% de Lula. Agora, ele tem 42,2% (4,7 pontos percentuais a menos) frente aos 47,7% do Presidente.
Os novos números mostram que a diferença entre os dois ampliou – saindo de 2,5 para 5,5 pontos percentuais –, o que fez o cenário de segundo turno deixar o empate técnico. Se a eleição fosse hoje, Lula seria reeleito.
Porém, não se pode cravar que esse cenário seja resultado exclusivamente da crise em que se envolveu o senador.
A coluna De Olho no Poder já tinha analisado que a distância entre os dois vinha diminuindo – era de 8,3 pontos percentuais em março – e a tendência era que Lula alcançasse e ultrapassasse Flávio Bolsonaro.


O Presidente já vinha numa linha de crescimento, mas o escândalo envolvendo seu principal oponente pode ter acelerado esse movimento.
Entretanto, o levantamento não dá sinais de que Lula estaria herdando o capital político perdido por Flávio.
Crescimento dos desiludidos
Tanto no cenário espontâneo quanto nos estimulados, de 1º e 2º turnos, o número dos que pretendem anular o voto, votar em branco ou não votar em ninguém – os três são contabilizados no mesmo campo – aumentou no período da revelação dos escândalos, entre uma pesquisa e outra.
No cenário espontâneo foi de 6,8% (no início do mês) para 8,4% (agora). No estimulado de 1º turno em que aparecem Lula e Flávio, saiu de 5,5% para 7,8%.
Já no cenário de 2º turno, também entre o Presidente e o senador, o grupo dos que pretendem anular o voto aumentou de 6,7% para 9%.
E, na consulta da rejeição, os que desprezam todos os candidatos somam agora 3,6% – no início do mês eram 2%.
Os números sugerem que parte do eleitorado frustrado com Flávio tenha preferido se deslocar para o campo do voto nulo, branco ou da rejeição a ambos os candidatos.
Isso fica mais evidente quando o nome de Flávio é retirado do 1º turno. Nesse cenário, os votos nulos somam 18,3% e aparecem em 2º lugar na pesquisa, abaixo de Lula e acima dos demais pré-candidatos.
Os dados sinalizam ser bastante improvável que tenha ocorrido uma migração do eleitor frustrado de Flávio para Lula em tão pouco tempo e num ambiente ainda muito marcado pela forte polarização.


De onde vem, então, o crescimento de Lula?
É natural que, durante o período eleitoral, quando um candidato cai em desgraça, o seu oponente direto acabe se favorecendo politicamente. Isso não é novidade e não merece uma análise mais aprofundada.
Entretanto, no caso em questão, outros fatores – além do escândalo envolvendo Flávio – podem explicar o desempenho melhor do Presidente constatado no último levantamento. Primeiro, os números:
No cenário espontâneo, Lula cresceu 3 pontos – acima da margem de erro que, lembrando, é de 2,2 pontos percentuais. Ele pulou de 34,9% para 37,9%.
No cenário estimulado de 1º turno, o crescimento foi ainda mais acentuado. Lula foi de 38,3% para 42,7% – uma diferença de 4,4 pontos.
No cenário de 2º turno, como já mencionado acima, Lula passou à frente e impôs uma liderança acima da margem de erro, o que não caracteriza mais empate técnico.
Na rejeição, também houve inversão e Lula deixou de encabeçar a lista dos mais rejeitados – agora liderada por Flávio. De 47,4% de taxa de rejeição, Lula foi para 44,3% – uma redução de 3,1 pontos percentuais.
Se é bastante improvável que os eleitores decepcionados com Flávio tenham migrado para Lula, o que explica o crescimento do Presidente? Dois dados apontados na pesquisa podem trazer essa resposta.
O primeiro trata da saída do ex-governador Ciro Gomes (PSDB) da disputa. Ciro foi mencionado no levantamento anterior como presidenciável, mas, dias após a publicação da pesquisa, anunciou que seria pré-candidato ao governo do Ceará.
Na ocasião do outro levantamento, Ciro pontuou 4,4% das intenções de voto no cenário estimulado com a presença de Lula e Flávio.
Já no cenário em que o Presidente foi substituído por Fernando Haddad (PT), Ciro subiu para 11,5% das intenções de voto.
Como não houve um crescimento significativo entre os demais candidatos, é provável que boa parte do eleitorado de Ciro tenha migrado para Lula.
Um outro ponto a ser analisado é a parcela dos indecisos – os eleitores que devem definir a eleição deste ano.
Os que ainda não decidiram o voto somavam 20,8% no levantamento do início de maio e caíram para 19,2%, no cenário espontâneo da última pesquisa. No cenário estimulado, tendo Lula e Flávio na disputa, a queda foi maior: de 4,1% para 2,8%.
Na avaliação de 2º turno, também no cenário mais provável – entre Lula e Bolsonaro – os indecisos saíram de 1,9% para 1,2%.
A leitura no mercado político é que Lula está tendo mais sucesso na captação desse voto do que outros candidatos, uma conquista que analistas associam à força da máquina pública e ao impacto de políticas sociais e econômicas implementadas recentemente.
Em tempo: ainda não é possível dizer se o desgaste que o senador Flávio Bolsonaro está sofrendo é momentâneo – com a possibilidade dele se recuperar em breve – ou se é definitivo e irá se consolidar numa trajetória de queda nas pesquisas. A dimensão desse movimento poderá ser melhor avaliada nos próximos levantamentos.
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