Vigilantes são acusados de integrar “milícia privada” envolvida em homicídio e torturas no ES


Gabriel dos Santos Amaral, Gabriel Fittipaldi, Lucas Miguel Oliveira Santos, Paulo Henrique Esteves Silva, Rafael de Souza Silva, Saimon Sales Cesar, Thiago Gonçalves, Ralson Amancio Chagas e Celso Henrique de Azevedo integram grupo de vigilantes acusado de praticar torturas e assassinato. Fotos: Divulgação/PCES

Nove vigilantes se tornaram réus em uma ação penal que investiga a atuação de uma organização criminosa suspeita de capturar, torturar e agredir pessoas em situação de rua no Espírito Santo. Oito deles estão presos e um está foragido.

Segundo as investigações, o grupo utilizava a atividade de segurança privada para retirar essas pessoas de áreas monitoradas pela empresa. Um dos episódios terminou na morte de Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, conhecido como “Bracinho”, na Serra.

A denúncia do Ministério Público do Espírito Santo foi recebida pela Justiça em 7 de agosto. Na decisão, o juiz Vinícius Doná de Souza afirma que os acusados reunidos na investigação indicam que o homicídio não foi um fato isolado e que o grupo funcionava, em tese, como uma “milícia privada” sob o pretexto de prestar serviços de segurança.

“É um crime gravíssimo, algo estarrecedor. Com requinte de crueldade, esses indivíduos que realizavam essas rondas, contratadas por condomínios, estavam utilizando essa função para poder fazer com que essas pessoas desaparecessem ali daqueles locais onde elas circulavam”, afirmou o delegado-geral da Polícia Civil, Jordano Bruno.

Quem são os nove réus

  • Ralson Amâncio Chagas – preso. Segundo a decisão, era o coordenador operacional e apontado como líder do grupo.
  • Celso Henrique de Azevedo – preso.
  • Gabriel dos Santos Amaral – preso.
  • Thiago Gonçalves – preso.
  • Saimon Sales César – preso.
  • Paulo Henrique Esteves Silva – preso.
  • Gabriel Fittipaldi, conhecido como “Pimentel” – preso.
  • Rafael de Souza Silva – preso.
  • Lucas Miguel Oliveira dos Santos, conhecido como “Mec” – foragido.

A Justiça recebeu a denúncia contra os nove e manteve a prisão preventiva de todos. Eles ainda poderão apresentar resposta à acusação e ainda não foram julgados.

Gabriel dos Santos Amaral, Gabriel Fittipaldi, Lucas Miguel Oliveira Santos, Paulo Henrique Esteves Silva, Rafael de Souza Silva, Saimon Sales Cesar, Thiago Gonçalves, Ralson Amancio Chagas e Celso Henrique de Azevedo integram grupo de vigilantes acusado de praticar torturas e assassinato. Fotos: Divulgação/PCES

Investigação começou após desaparecimento

Segundo o delegado Tarcísio Otoni, titular da Delegacia Especializada de Pessoas Desaparecidas (DEPD), a investigação começou depois que uma mãe procurou a polícia para informar que não conseguia encontrar o filho, que vivia em situação de rua, na Praia do Suá, em Vitória.

Uma mãe que sentia falta do seu filho, pessoa em situação de rua, nos procurou para relatar que não mais o encontrava. Ele residia ali embaixo da Terceira Ponte. Num desses dias, ela não encontrou seu filho e trouxe essa situação para a delegacia.

Tarcísio Otoni, delegado

A partir das imagens de videomonitoramento, os investigadores identificaram um veículo com homens uniformizados e chegaram à empresa de vigilância privada.

“São criminosos que agiam em série. Foi verificado que se tratava de uma organização criminosa estável, com o objetivo de fazer realmente uma limpeza social. Nós identificamos crimes em série. Há pelo menos dois anos, eles vinham retirando pessoas em situação de rua de locais que perturbavam os condomínios que por eles eram monitorados. Eles praticavam tortura contra essas pessoas”, afirmou Otoni.

O delegado disse que a polícia identificou dezenas de episódios de violência, mas três casos já estavam suficientemente comprovados para encaminhamento à Justiça: o homicídio de Marcos Vinícius e dois casos de tortura.

Tortura e extração de dente

Segundo a denúncia, Marcos Vinícius já era conhecido pelos vigilantes e havia sido alvo de agressões antes de ser morto. O delegado Tarcísio Otoni afirmou que Marcos havia sido torturado em 8 de março, depois de entrar em um condomínio monitorado pela empresa.

“Ele já havia sido torturado por eles no dia 8 de março, onde houve a extração de um dente, pelo fato de Marcos Vinícius ter entrado em um condomínio monitorado pela empresa para a qual eles trabalhavam”, disse.

Ainda segundo Otoni, dias depois, os integrantes do grupo teriam decidido matar Marcos após outro episódio envolvendo a empresa.

“Posteriormente, no dia 17 de março, eles decretaram a morte de Marcos Vinícius em razão de ele ter ingressado no prédio do próprio condomínio onde a empresa de vigilância funcionava. Para eles, conversando entre si, acharam isso uma afronta contra a autoridade deles naquele local”, disse o delegado.

De acordo com as investigações, na madrugada de 17 de março, os acusados localizaram Marcos na Praia do Suá, em Vitória. Parte deles teria abordado a vítima com simulacros de armas de fogo e a colocado à força em um veículo. O grupo teria seguido para uma área de mata em Nova Almeida, na Serra, onde Marcos foi agredido e abandonado gravemente ferido.

Ainda segundo o Ministério Público, alguns integrantes retornaram ao local durante a madrugada e encontraram a vítima viva, mas deixaram a área novamente. Na tarde daquele dia, um dos acusados teria voltado ao local e constatado a morte.

Marcos Vinícius Lopes Rodrigues, segundo a polícia, foi sequestrado e torturado duas vezes pelos vigilantes. A segunda resultou em sua morte. Fotos: Divulgação/PCES

No dia seguinte, 18 de março, os envolvidos teriam retornado para ocultar o corpo. Segundo a decisão judicial, quatro deles usaram pás e cavadeiras para esconder o cadáver em uma cova rasa em uma plantação de eucaliptos.

O juiz também citou como elemento de prova o sangue encontrado no banco traseiro da Fiat Strada apreendida na investigação. Segundo a decisão, o material era compatível com o perfil genético de Marcos Vinícius.

Grupo teria atuação organizada

A investigação aponta que os vigilantes utilizavam um grupo de WhatsApp chamado “Rondas” para se comunicar. Segundo a decisão judicial, Ralson Amâncio Chagas exercia a liderança operacional e teria coordenado a captura de Marcos e a posterior ocultação do cadáver.

O juiz afirma que os elementos reunidos indicam uma estrutura estável, com divisão de tarefas e atuação coordenada. Para a Justiça, os fatos investigados indicam que o homicídio teria sido consequência de uma organização criminosa que atuava sob o pretexto de prestação de segurança privada.

A prisão preventiva dos oito foi mantida. Na decisão, o juiz considerou que permanecem presentes a prova da materialidade, os indícios suficientes de autoria e os fundamentos para a manutenção da prisão, como o risco à ordem pública e à instrução criminal.

Outro ponto da investigação envolve a possível responsabilidade de contratantes da empresa. Segundo Jordano Bruno, isso dependerá da comprovação de que eles tinham conhecimento da forma de atuação dos vigilantes.

“Uma vez constatado que houve o conhecimento, a ciência de que esse modus operandi, essa forma de agir que esses indivíduos praticavam, era de conhecimento dos contratantes, eles também podem responder criminal e civilmente pela conduta praticada”, afirmou o delegado-geral.

*Com informações da repórter Suellen Araújo, da TV Vitória/Record.



FONTE: Folha Vitória


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