Sejamos responsáveis. Portugal não nos deve mais nada

Certa feita, numa publicação no Instagram de um português, vi um comentário de um imigrante brasileiro em Portugal: “Devolve o nosso ouro“. Ao que replicou o dono do perfil: “Devolvei-nos os espelhos.”

Há um tipo de brasileiro que se julga intelectual por replicar um discurso supostamente anticolonial. Talvez sejas tu um desses também.

“A culpa do fracasso brasileiro é de Portugal”. A desigualdade, a corrupção, a violência, o atraso institucional, a total falência na educação, o abismo social, o apartheid disfarçado, a falta de infraestrutura, a destruição ambiental. . . Tudo tem Portugal como culpado. É uma postura confortável, porque tem um verniz de consciência histórica sem exigir responsabilidade passada nem presente.

Dizem que é pensamento crítico, mas é generosidade demais. É, na verdade, conversa de de filho herdeiro mimado e com síndrome de Peter Pan.

Portugal deixou de administrar o Brasil em 1822. Juridicamente, já saíra em 1815, quando a Carta Régia de D. João VI elevou o Brasil à condição de Reino, extinguindo formalmente o estatuto colonial e colocando-o em pé de igualdade com a metrópole. Antes mesmo de ser independente, o Brasil já era um imenso e poderoso reino, dos poucos que sobreviveram de pé a Napoleão.

Entre 1808 e 1821, o Rio de Janeiro foi a única cidade do mundo a sediar um grande império transcontinental europeu fora do continente. Nenhuma potência colonial na história fizera isso antes. Portugal fê-lo por necessidade napoleônica, mas o resultado foi que o país recebeu faculdades, o Banco do Brasil, corte real, burocracia, imprensa, biblioteca, academia militar, escola de medicina e globalização com a abertura dos seus portos ao comércio internacional. Tudo antes mesmo de se tornar um país soberano e autogovernado.

A independência em 1822 custou pouco sangue brasileiro, ao contrário das antigas colônias espanholas, que guerrearam por décadas, e das colônias lusitanas em África. Sudestinos e sulistas preguiçosamente herdaram tudo pacificamente da própria casa real de Bragança. Apenas foram informados de que houve uma Independência.

A exceção honrosa vai aos baianos que pegaram em armas, travaram o confronto mais sangrento do período e expulsaram de Salvador as tropas lusitanas do General Madeira de Melo a 2 de julho de 1823, garantindo a unidade territorial com dimensões continentais de um Brasil que, ao sul, já havia calmamente declarado a sua independência meses antes.

O Centro-Sul separou-se do pai com uma carta; os baianos asseguraram que o filho ficasse inteiro como é hoje. Portugal reconheceu a separação em 1825.

Herdamos 8,5 milhões de km², uma língua presente em quase todos os continentes da Terra, fronteiras negociadas, instituições funcionais e um território entre os mais ricos do planeta. Recebemos tudo sem conquistar nada por conta própria e temos a audácia de chamar o nosso pai de ladrão fazendo-nos de vítima?

Os números são impiedosos. Portugal cobrava o Quinto (dos infernos): 20% sobre os minérios preciosos extraídos. E apenas 10% sobre as demais produções e extrações. Era um paraíso fiscal comparado a hoje. Em 2024 pagamos 32,2% do nosso PIB em impostos.

E ainda há mesmo quem pense que o ladrão é o “papai” que deixou ao filho uma herança infinitamente maior do que aquela que guardou para si próprio?

Nós hoje pagamos sobre tudo o que ganhamos, o que gastamos, o que comemos, o que compramos, o que transferimos, o que herdamos. E o nosso rico dinheirinho fica aqui, administrado pelos nossos irmãos brasileiros honestíssimos e incorruptíveis. E ainda há quem venha dizer que a culpa é de Portugal após 204 anos de maioridade?

“Devolve o ‘nosso‘ ouro” é uma fraude, pois Brasil e Portugal eram tão a mesma coisa quanto o Pará e o Brasil o são hoje. A mesma entidade política e o mesmo governo. O ouro pertencia à mesmíssima governança do Brasil e de todo o império lusitano ultramarino. Exigir essa devolução é como a tua mão direita processar a tua mão esquerda pelo furto a si próprio.

Pelo mesmo raciocínio, Portugal poderia hoje exigir de volta os espelhos e bugigangas que os tais colonizadores usavam para negociar com os povos das terras que dominavam. A lógica é igualmente válida e igualmente ridícula. Reclamar o ouro colonial é tão absurdo quanto um paraense, acreano, maranhense ou roraimense ir a Brasília exigir de volta as ‘suas‘ árvores que ‘os brasileiros’ lhes roubaram.

Já os descendentes de africanos escravizados, sim, carregam o peso duplo de uma violência histórica real. A brutalidade foi convenientemente sustentada durante 66 anos por brasileiros totalmente independentes, que tinham autonomia para a encerrá-la, mas escolheram perpetuá-la. Hodiernamente, de forma mais sutil e perversa.

Os imigrantes italianos, japoneses, sírio-libaneses, espanhois e alemães desembarcaram no Brasil pisaram num país já plenamente soberano e independente. Não têm absolutamente nenhuma história ou vínculo com Portugal. Se foram enganados, não há culpa alguma em Portugal.

E ainda assim vejo uns Ferrari, Schneider, Habib e Matsumoto participando de discursos anticoloniais acalourados dizendo que “nós” somos as eternas vítimas dos portuguese que “nos” invadiram. Como se, por acaso, fossem ianomâmis ou caiapós de sangue puro e saídos de um projeto eugenista. Ou como se Pedro Álvares Cabral tivesse aqui chegado e tomado a Avenida Paulista, o shopping Leblon, a Asa Sul e Asa Norte, o bairro de Boa Viagem no Recife.

E os pernambucanos que creem ser descendentes de 10 mil holandeses que foram sumariamente expulsos ou degolados após somente 24 anos de ocupação do Recife? Esta é mesmo a piada do século. Recentemente li um artigo sobre os resultados de exames genéticos de nordestinos e os tais “galegos” (como chamam os loiros no nordeste) não são nada mais do que . . . galegos, povos da Galícia e do norte de Portugal.

Os únicos com legitimidade histórica para acusar Portugal de alguma coisa aqui são os povos originários. E, mesmo assim, esses têm razões muito mais urgentes para cobrar satisfações dos brasileiros, não dos portugueses. É o brasileiro de 204 anos de maioridade que desfloresta, garimpa ilegalmente, queima floresta, toma as suas terras e joga mercúrio nos seus rios.

A causa indígena, por sinal, tem sido muito bem aproveitada e explorada por grandes oportunistas e facções de criminosos brasileiríssimos sem qualquer vínculo étnico indígena, o que enfraquece ainda mais a voz de quem tem razão verdadeira.

O que temos é uma relação edipiana e rasa, travestida de pseudoconsciência histórica pela nossa educação fracassada, com um pai que morreu pobre e pacificamente, mas deixou-nos ultrarricos há 204 anos.

“Devolve o nosso ouro” é síndrome de herdeiro irresponsável que dilapida o patrimônio, endivida toda a família e culpa os antepassados de 6 ou 7 gerações atrás pela própria falência e estupidez.

Portugal fez o trabalho “sujo” de abrir-nos um território continental, erguer-nos cidades barrocas lindíssimas, estrutura admnistrativa plena e legar-nos a oitava língua mais falada no mundo e que nos dá acesso e mercado a 260 milhões de pessoas espalhadas pelo mundo.

Deu-nos também o idioma latino mais antigo e sofisticado que, por sinal, destruímos com a mesma irresponsabilidade com que administramos o restante da nossa herança.

Não há intelectualismo algum nisso. É pura transferência de responsabilidade, falta de autocrítica e vitimismo irresponsável. E o mais grave é que, enquanto apontamos para Lisboa, viramos as costas à nossa Brasília.



FONTE: Folha Vitória


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