Projeto de reajuste expõe disputa pelo comando da Câmara de Vitória e impõe revés ao prefeito

O projeto da Prefeitura de Vitória que concede reajuste aos servidores municipais expôs o racha na Câmara de Vereadores pelo comando do Legislativo e impôs uma derrota ao prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) na Casa – a primeira, neste ano.

Em uma sessão lotada e tensa, nesta terça-feira (17), vereadores protagonizaram discursos acalorados e bate-boca nos bastidores, a maioria entre integrantes da base aliada.

O líder do prefeito na Câmara, vereador Leonardo Monjardim (Novo), tentou fazer com que o Projeto de Lei 84/2026 – que deu entrada no sistema do Legislativo às 10h04 – fosse à votação ainda nesta terça-feira. Mas não teve sucesso.

A proposta concede reajuste de 10% aos servidores, sendo 5% em abril deste ano e 5% em janeiro do ano que vem. Prevê também a extinção de 100 cargos comissionados e a criação de cinco funções gratificadas.

Monjardim apresentou um requerimento de “urgência urgentíssima”, que é um instrumento que permite que o projeto seja votado no mesmo dia. Porém, ele não conseguiu o mínimo de assinaturas necessárias (7) para levar o requerimento adiante – entre os 21 vereadores, apenas seis assinaram o documento.

Pelo que a coluna apurou com a Câmara de Vitória, é a primeira vez, neste ano, que um requerimento de “urgência urgentíssima” a um projeto da prefeitura é derrubado. O reajuste deve ser votado na próxima segunda-feira (23).

Clima de tensão e sessão interrompida

A sessão, que começou 9h30 e se prolongou até o início da tarde, foi tensa e os vereadores se revezaram na tribuna com discursos acalorados, acusações e indiretas.

“Mão peluda”, “era Gratz”, “menino mimado”, “que me matem na política”, “não sou moleque, sou homem”, “quem tem rabo preso, que segure seu rabo” e “enviados de Satanás”, entre outras pérolas, fizeram parte dos discursos dos parlamentares, que divergiam sobre duas questões a respeito do projeto:

A primeira, sobre a data de votação. Muitos parlamentares argumentaram que não conheciam a proposta, que chegou durante a sessão, e que não teriam condições de votar hoje.

O outro ponto foi a respeito do pagamento do reajuste. Muitos defenderam que os 10% fossem pagos de uma vez, neste ano – justificando que os servidores não receberam aumento no ano passado. Eles sugeriram a apresentação de uma emenda.

A Câmara estava lotada. Segundo vereadores, servidores municipais ocupavam as galerias e alguns secretários da prefeitura estavam em plenário e acompanharam parte da sessão.

Em alguns momentos, houve tumulto, com gritos vindos da galeria contra o discurso de alguns vereadores.

O presidente da Câmara, Anderson Goggi (Republicanos), chegou a pedir que o plenário fosse esvaziado e que só permanecessem os servidores da Casa e os da prefeitura identificados, para poder manter a ordem.

Como o debate não avançava para um consenso, Goggi interrompeu a sessão por 20 minutos – que duraram 40 – e chamou os vereadores para uma reunião. No entanto, segundo a coluna apurou, a maioria dos parlamentares não quis participar.

Ali mesmo no plenário, o presidente e o líder do prefeito decidiram colocar o projeto para votação na próxima sessão, que acontecerá na segunda-feira (23) – uma vez que a sessão prevista para amanhã foi antecipada na semana passada.

Monjardim apresentou um novo requerimento, este apenas de urgência, para que o projeto fosse à votação na segunda. O requerimento foi aprovado por 18 votos a zero.

O pano de fundo

Os ânimos exaltados e o destempero nas falas dos parlamentares não foram só por conta do rito de votação do projeto de reajuste.

O pano de fundo dos embates calorosos dessa manhã é a eleição da Mesa Diretora da Câmara e toda a polêmica em torno do tema.

Conforme a coluna noticiou na semana passada, a data da eleição interna para definir o presidente da Casa para o biênio 2027-2028 está marcada para agosto.

Porém, um grupo de cinco vereadores – Goggi, Monjardim, Luiz Emanuel (Republicanos), Davi Esmael (Republicanos) e Armandinho Fontoura (PL) – quer mudar o regimento para adiar a eleição para dezembro.

Eles alegam que a eleição interna pode ser “contaminada” pelas eleições gerais de outubro, já que em agosto, os candidatos estarão em plena campanha eleitoral.

Os cinco também são candidatos nas eleições gerais – a deputado estadual, federal e senador – e, numa disputa pela presidência da Casa em agosto, não participariam do pleito.

Quem teria também interesse em adiar a eleição seria o prefeito, que teria ligado para alguns parlamentares e pedido a mudança – segundo afirmou o vereador Aylton Dadalto, em entrevista à coluna. Questionada anteriormente, a prefeitura não se manifestou a respeito.

Na outra ponta, defendendo que a data da eleição seja mantida, estão 16 vereadores – maioria da base aliada –, que já têm um pré-candidato à presidência: o vereador Dalto Neves (SD).

Eles são contra a mudança do regimento e defendem que não haja interferência externa na escolha da Câmara.

Peso da escolha

A escolha do próximo presidente é estratégica, por vários motivos. Um deles é a linha sucessória da Prefeitura.

Ao que tudo indica, Pazolini deve renunciar ao cargo de prefeito até o início de abril, para disputar o governo do Estado. A vice, Cris Samorini (PP), então, assume a Prefeitura de Vitória e, sem um vice, quem ficará na cadeira de prefeito se ela se ausentar será o presidente da Câmara.

Outro ponto que precisa ser lembrado é que o presidente do Legislativo é quem dita o ritmo da aprovação dos projetos na Casa. Ele quem faz a pauta e tem o poder de acelerar ou travar a tramitação das propostas – incluindo as da prefeitura.

Em outras palavras, o presidente é um dos responsáveis pela estabilidade política do município, podendo ter maior ou menor influência a depender também de quem esteja no comando da prefeitura.

Não à toa que a eleição da Mesa ultrapassou os muros da Câmara e passou a ser tratada como peça-chave no xadrez político da Capital.

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FONTE: Folha Vitória


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