Policial denuncia sociólogo por injúria racial durante manifestação política


O sociólogo Roberto Barcelos Ferrante foi acusado de racismo pela segunda vez. Fotos: Reprodução de vídeo

O sociólogo e ator Roberto Barcelos Ferrante, de 47 anos, voltou a ser denunciado por suspeita de injúria racial em Vitória. Desta vez, a vítima é um policial militar e pastor que participava do “Bloquinho do 22”, manifestação de apoio a Flávio Bolsonaro realizada no dia 17 de outubro. O ato aconteceu na Praia de Camburi, e a confusão foi registrada na região de Jardim da Penha.

O episódio envolvendo o sociólogo foi registrado em vídeo pelo próprio policial, identificado como Saulo Silva. Nas imagens, Roberto aparece discutindo com Saulo e outras pessoas que passavam pela rua usando camisas com as cores da bandeira do Brasil.

Durante a discussão, o sociólogo faz referências à cor da pele do policial, utiliza expressões ofensivas e troca acusações políticas com os participantes da manifestação.

Policial relata ofensas racistas

Saulo contou à repórter Suellen Araújo, da TV Vitória, que passava em frente ao condomínio onde Roberto mora quando percebeu que ele estava xingando pessoas que circulavam pelo local. Segundo o policial, as ofensas passaram a ser direcionadas a ele quando se aproximou.

Estava passando ali em frente ao condomínio quando vi que um homem estava fazendo xingamentos e proferindo palavras de baixo calão a quem estava passando. E ali, quando chegou a minha vez de passar, ele começou a fazer insultos.

Saulo Silva, policial militar

O policial decidiu usar o celular para registrar a situação. Ele afirmou que acreditava que a gravação faria o sociólogo interromper os xingamentos, mas isso não aconteceu. Em um dos momentos registrados, Roberto chama Saulo de “preto burro” e afirma que ele está do “lado errado da história”.

O policial questiona as declarações e pergunta por que está sendo chamado de burro.

“Eu peguei a câmera para filmar. E achei que ele fosse parar ou diminuir. Pelo contrário, ele continuou. E aí ele continuou falando, no meu caso, sobre questões racistas. Falou que eu era preto, burro, que ele era inteligente e tudo mais”, contou Saulo.

O sociólogo Roberto Barcelos Ferrante foi acusado de racismo pela segunda vez. Fotos: Reprodução de vídeo

Discussão envolve política e Paulo Freire

Além das ofensas racistas relatadas pelo policial, o vídeo mostra uma discussão política entre os envolvidos. Saulo identifica o sociólogo como eleitor do PT e critica seu comportamento, enquanto Roberto continua dirigindo insultos ao militar.

A gravação também mostra que um casal que acompanhava Saulo foi alvo de xingamentos. Os três usavam roupas com as cores da bandeira do Brasil, associadas às manifestações de apoio a Bolsonaro.

Durante a discussão, Roberto afirma ser professor universitário e menciona a área de Sociologia. Saulo, então, passa a questioná-lo sobre as ideias do educador e filósofo Paulo Freire.

“Já que eu sou um preto burro, vamos debater sua matéria”, diz o policial, antes de perguntar se o sociólogo defende Paulo Freire.

Roberto responde que sim. Na sequência, Saulo pergunta quais países utilizam a metodologia do educador. O sociólogo afirma que ela é adotada em todos os países, mas não cita exemplos específicos.

O embate continua com novas provocações políticas e ofensas. Em outro momento, Roberto faz declarações ofensivas à religião cristã, enquanto Saulo, que também é pastor, responde desejando que Deus o abençoe.

Ao final do vídeo, o policial afirma que estava apenas passando pela rua quando começou a ser insultado. Ele também diz que não pretende entrar em uma briga, mas que iria se defender caso fosse agredido.

Apesar de Roberto afirmar na gravação que seria professor universitário, a Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) informou, em julho, que ele não possui vínculo empregatício com a instituição. Segundo a universidade, o sociólogo cursou Ciências Sociais entre 2003 e 2009.

O policial militar e pastor Saulo Silva deu entrevista à TV Vitória sobre ataques racistas que teria sofrido por parte do sociólogo Roberto Barcelos Ferrante. Foto: Reprodução/TV Vitória

Polícia Civil investiga nova denúncia

Após o episódio, Saulo registrou um boletim de ocorrência pela Delegacia Online da Polícia Civil. O policial espera que as autoridades apurem o caso e adotem as providências cabíveis. Ele afirmou ainda ter recebido relatos de moradores sobre outras situações envolvendo o sociólogo, incluindo supostas ameaças.

Espero que as nossas autoridades consigam apurar de fato toda essa circunstância infeliz, lamentável, e que elas possam dar uma resposta a isso, porque não é a primeira vez que isso acontece.

Saulo Silva, policial militar

A Polícia Civil informou que a nova denúncia é investigada por uma unidade especializada em crimes de discriminação. Para preservar o andamento das apurações, a corporação não divulgou outros detalhes.

Sociólogo já havia sido preso por injúria racial

Esta não é a primeira vez que Roberto Barcelos Ferrante é investigado por suspeita de injúria racial. Em julho deste ano, ele foi preso em flagrante após uma confusão na região da Rua da Lama, também em Jardim da Penha.

Na ocasião, um servidor público de 40 anos relatou ter sido alvo de ofensas racistas depois de pedir que Roberto interrompesse comentários considerados preconceituosos contra pessoas LGBTQIA+ que estavam no local.

A discussão também foi gravada em vídeo. Segundo o relato da vítima, o sociólogo teria feito ameaças e tentado agredi-la. A Guarda Civil Municipal foi acionada e uma faca foi apreendida durante a ocorrência.

Roberto foi autuado em flagrante por injúria racial e ameaça. No dia 13 de julho, durante audiência de custódia, a Justiça concedeu liberdade provisória ao investigado, sem pagamento de fiança.

Em julho, o sociólogo Roberto Barcelos Ferrante foi preso em flagrante por ofensas racistas contra um servidor público. Foto: Reprodução/TV Vitória

Na época, a defesa afirmou que trechos do vídeo divulgado nas redes sociais haviam sido retirados de contexto e informou que acompanharia o processo para garantir o direito de defesa do sociólogo.

A injúria racial está prevista na Lei do Racismo e pode resultar em pena de dois a cinco anos de reclusão, além de multa.

A equipe da TV Vitória tentou contato com a defesa de Roberto Barcelos Ferrante para obter um posicionamento sobre a nova denúncia, mas não recebeu resposta até a conclusão da reportagem. O espaço permanece aberto para manifestação.

*Com informações da repórter Suellen Araújo, da TV Vitória/Record.



FONTE: Folha Vitória


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