Pitty desabafa sobre cobranças por posicionamento: “Não cedo a uma demanda só porque é externa”


Foto: Natalia Rampinelli/AgNews

Depois de sete anos sem lançar um álbum de inéditas, Pitty lançou na última sexta-feira, 16, um trabalho que marca um novo momento de sua trajetória.

Intitulado “PITTY”, o sexto disco de estúdio da cantora reúne 13 faixas e nasceu de um processo de composição que ela própria define como inédito: em vez de recorrer a anotações antigas, como costumava fazer, escreveu tudo do zero.

“São três anos de terapia em 13 músicas”, resume, ao explicar a sensação de estar fazendo seu primeiro disco.

Em entrevista ao Estadão, a artista explica a liberdade que orientou a criação do álbum, a experimentação musical e a relação com o público que acompanha sua carreira há mais de duas décadas.

A cantora também comenta os avanços na presença feminina no rock brasileiro e explica como lida com as cobranças por posicionamentos nas redes sociais sem abrir mão da coerência entre o que pensa e a maneira como vive.

O novo trabalho chega após “Matriz”, lançado em 2019, e mantém o rock no centro da linguagem musical da cantora, embora explore outras possibilidades rítmicas. Para Pitty, a experimentação não partiu de um plano calculado, mas de uma vontade espontânea de criar.

Eu não racionalizei nada, eu não pensei: ‘Ah, eu tenho que ter uma música assim, outra música assada, outra música X’. Não. Foi um processo absolutamente intuitivo.

Pitty

“Foi tudo do zero, tudo fresco, tudo de agora”

A sensação de recomeço que acompanha “PITTY” está ligada à maneira como as músicas surgiram. Embora tenha o hábito de escrever constantemente e guardar ideias para projetos futuros, a cantora percebeu que, desta vez, não havia retomado nenhum material antigo. A observação veio de Rafael Ramos, parceiro de longa data e produtor do álbum ao lado dela.

“Eu escrevo muito o tempo todo, só que dessa vez, que aconteceu um negócio inédito, que me chamou a atenção inclusive, foi o Rafa, que trabalha comigo há mil anos, que falou assim: ‘Você percebeu que dessa vez você não revisitou nada?’”, conta.

A constatação ajudou Pitty a compreender o caráter particular do disco. Em vez de buscar composições anteriores, ela partiu das experiências recentes e transformou o que viveu nos últimos anos em novas canções.

“Eu não voltei. Pelo contrário, foi tudo do zero, foi tudo fresco, foi tudo de agora. Por isso que eu estou sentindo que é um primeiro disco. Porque é tudo agora. Esse assunto é de agora”, explica.

O processo também a aproximou da maneira como compunha no início da carreira. Para Pitty, o álbum preserva a simplicidade que marcou suas primeiras composições, sem deixar de incorporar o que ela se tornou desde então.

Como se tivesse aquela essência daquele quarto lá de Salvador, só que agora, em 2026, com essa mulher que eu sou hoje, mas recuperando de uma certa forma aquela essência da simplicidade dos três acordes, de uma câmera na mão e ideia na cabeça, de tocar numa garagem. Acho que eu nunca me abri tanto.

Pitty

Rock, hip-hop e a liberdade de experimentar

Em “PITTY”, o rock continua sendo a base, mas não determina sozinho os caminhos das composições. Armadura explora uma sonoridade mais dançante, enquanto Desobediente combina referências melódicas distintas, batida de hip-hop e guitarras pesadas.

A cantora, no entanto, não estabelece previamente até onde pode ir musicalmente. A compreensão do resultado, acredita, também depende da maneira como as músicas serão recebidas por outras pessoas.

“Cada vez que eu converso com alguém, eu entendo mais sobre esse disco, porque eu acho que a gente só entende o que a gente faz quando vai pro coletivo”, afirma.

A aproximação com outros gêneros também faz parte de sua maneira de enxergar a música. Pitty diz que se conecta ao hip-hop não necessariamente pela sonoridade, mas pelas ideias e mensagens que atravessam as canções.

Não é sobre o estilo de música, é sobre a mensagem, é sobre a ideia. Vai além do gênero que está escrito ali na prateleira. Eu acho que é a junção de ideias, quando as ideias se conectam, os ideais se conectam.

Pitty

Avanço na presença feminina no rock brasileiro

Em “Caminhada”, a cantora aborda parceria e sororidade em versos sobre apoiar outra mulher nos momentos de fragilidade. A temática dialoga com uma trajetória construída em uma cena historicamente marcada pela presença masculina.

Pitty avalia que os últimos anos trouxeram avanços na participação das mulheres no rock e destaca também a força das artistas do rap. Para ela, a ampliação desse espaço é importante, mas não deve resultar em uma separação rígida entre produções feitas por mulheres e homens.

“Eu não gosto de separar gênero, porque eu acho que a gente está querendo equidade. Então, esse negócio de rock de mulher, rock de homem… A gente é música, é arte”, afirma.

A cantora conta que fez questão de reunir mulheres da cena musical no clipe de “Sobremesa”, primeiro single do álbum. A participação das artistas foi articulada pouco antes da gravação, a partir de conversas com MC Taya, que a aproximaram de nomes que estão construindo novos caminhos no rap.

“Eu tenho visto um movimento bem massa nesse sentido. Demorou esse tempo todo para poder ver, e eu sou superentusiasta, eu quero que isso se consolide e cresça”, diz.

A defesa da equidade, segundo Pitty, passa pela convivência entre artistas e pela possibilidade de compartilhar os mesmos espaços, sem criar divisões que reforcem diferenças de gênero.

“De novo, de forma igualitária, sem esse apartar de meninas para cá e homens para cá. A gente quer estar junto com todo mundo”, afirma.

“O maior prêmio” é reunir diferentes gerações no mesmo show

Ao longo de mais de 20 anos de carreira, Pitty construiu um público que reúne pessoas de diferentes idades e origens. Em vez de medir o sucesso apenas por números, a cantora destaca a diversidade de quem acompanha seu trabalho como uma das maiores conquistas de sua trajetória.

“O maior prêmio que eu acho que eu tenho na vida é olhar pro meu público e ver exatamente essa paisagem”, diz.

A cantora descreve a presença de crianças, adultos, homens, mulheres, pessoas brancas e negras, gays e héteros entre os espectadores. A diversidade que encontra diante do palco é também a imagem de sociedade que gostaria de ver fora dos shows.

Às vezes, quando eu estou no palco, eu falo para a galera: ‘Gente, esse é o nosso universo particular’. E eu queria muito que o mundo fosse que nem a gente aqui.

Pitty

Embora acompanhe os aspectos mercadológicos da indústria musical e gerencie a própria carreira, Pitty diz que não considera positivo abrir mão de suas convicções para atender às exigências do mercado.

“Eu não acho que ceder a isso é algo bom para uma carreira artística. Agora, de novo, eu evito julgamentos. Eu acho que cada pessoa, cada artista sabe onde o seu calo aperta”, pondera.

“Não posso ceder a uma demanda só porque é uma demanda externa”

A relação transparente com o público também orienta a maneira como Pitty reage às cobranças por manifestações mais explícitas nas redes sociais. Ao longo da carreira, a cantora foi questionada por fãs sobre posicionamentos públicos e precisou lidar com expectativas em torno de sua atuação para além da música.

Ela afirma que procura agir de acordo com as próprias convicções, sem se manifestar apenas para atender a uma demanda externa. Para a artista, a coerência entre discurso e prática é um princípio que não pode ser abandonado.

“Eu lido com a verdade, desde sempre. […] Eu não posso ceder a uma demanda externa só porque é uma demanda externa”, diz.

Pitty reconhece que as cobranças existem, mas defende que cada pessoa tem seu tempo e sua maneira de se expressar. Ela também afirma que não se limita ao que diz publicamente: procura manter a coerência principalmente nas atitudes cotidianas.

Quando a gente perde coerência com o que a gente pensa, com o que a gente é, não tem como voltar atrás. Então eu tento, procuro e pratico ser coerente com o que eu digo. E, principalmente, não com o que eu digo, com o que eu faço, da forma que eu vivo.

Pitty

A cantora acredita que a relação construída com seus fãs ao longo dos anos, baseada na transparência, ajuda a tornar esse diálogo possível. “Eu sinto que as pessoas que realmente gostam do meu som, do meu trampo, elas entendem”, afirma.

“Rock na Bahia é underground do underground”

Ao dar ao álbum o próprio nome, Pitty coloca em evidência a artista que é hoje, sem deixar de reconhecer a jovem que começou a compor em uma cena independente na Bahia.

A cantora lembra que o rock já ocupava um espaço restrito no Brasil e que, em Salvador, a dificuldade de encontrar reconhecimento para esse tipo de música era ainda maior.

“Se rock é underground no Brasil, rock na Bahia é o underground do underground”, se diverte.

Apesar das mudanças na carreira e na indústria musical, ela identifica elementos que continuam presentes desde os primeiros anos: “A vontade de fazer, a cara de pau de experimentar, de ouvir a própria intuição, de ser fiel o máximo possível às coisas que a gente quer e precisa dizer”, resume.

Para Pitty, aceitar as críticas construtivas e entender que nem todo mundo vai gostar do que ela faz também fazem parte do trajetória. “Nem todo mundo vai gostar do que você faz e está tudo bem”, conclui.



FONTE: Folha Vitória


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