Pazolini eleito: os marcos e os desafios do novo governador


Foto: Thiago Soares / Folha Vitória

Após um segundo turno acirrado e marcado por troca de acusações dos dois lados, o ex-prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos) consolidou o favoritismo alcançado no primeiro turno e se elegeu governador, com 52,17% dos votos.

Ele superou o atual comandante do Palácio Anchieta, Ricardo Ferraço (MDB), que tentava a reeleição. O governador contava com o apoio da máquina, do ex-governador Renato Casagrande (PSB) e herdou boa parte dos votos do eleitorado petista. Ainda assim, não conseguiu a virada – embora tenha reduzido a distância de 15 para quatro pontos percentuais.

A eleição de Pazolini reconfigura o mapa do poder e estabelece alguns marcos importantes para o Espírito Santo.

Fim de um ciclo

O primeiro é que ela representa o fim de um ciclo, uma ruptura com os grupos que governam o Espírito Santo desde 2002.

Há 24 anos, apenas dois nomes revezam no comando do Palácio Anchieta: Casagrande e o ex-governador Paulo Hartung (PSD). Desde 1998 que os eleitores capixabas encontram nas urnas o nome de um dos dois – ou dos dois – para votar. Pazolini não emergiu desses grupos, embora conte com a simpatia de Hartung.

O delegado que ganhou visibilidade combatendo crimes contra crianças, construiu uma carreira política meteórica no Estado. Em 2018, em sua primeira disputa eleitoral, foi o segundo deputado estadual mais votado da Assembleia.

A chegada de Pazolini ao Legislativo coincidiu com o retorno de Casagrande ao Palácio Anchieta. Dois anos depois, durante a pandemia de Covid-19, os dois tomaram rumos distintos e Pazolini se tornou um dos principais opositores de Casagrande.

Em 2020, o então deputado disputou a Prefeitura de Vitória e desbancou o candidato à sucessão do então prefeito Luciano Rezende (Cidadania) – o deputado Fabrício Gandini (Podemos) – e o ex-prefeito João Coser (PT).

Em 2024, foi reeleito no primeiro turno, numa eleição disputada contra lideranças apoiadas pelo Palácio Anchieta. A vitória já sinalizava a intenção de chegar ao Palácio Anchieta. Em abril, renunciou ao cargo de prefeito para a disputa ao governo do Estado.

Renovação

A vitória de Pazolini também marca a consolidação de um novo ciclo geracional no comando do Estado. Aos 44 anos, o ex-prefeito faz parte de uma nova safra de gestores que têm ocupado espaços estratégicos no Estado.

Em todo processo eleitoral, o discurso de renovação é, tradicionalmente, o que mais ganha adesão. Na disputa governamental não foi diferente e o apelo por nomes novos foi o combustível central desde a pré-campanha.

O prefeito de Vila Velha, Arnaldinho Borgo (PSDB), 43, foi um dos principais defensores dessa tese. Apoiado em supostas pesquisas qualitativas que indicavam a preferência do eleitorado por lideranças mais jovens, Arnaldinho tentou se credenciar como o nome da sucessão de Renato Casagrande no lugar de Ricardo Ferraço. A articulação não vingou.

Na tentativa de recalibrar sua rota, o prefeito canela-verde ensaiou uma aproximação precipitada com o grupo de Pazolini – um movimento que soou atabalhoado nos bastidores –, mas acabou recuando e reafirmando fidelidade à base governista.

No fim das contas, a tese defendida por Arnaldinho confirmou-se nas urnas – embora o grupo de Ricardo avalie que a disputa tenha sofrido impacto do pleito presidencial.

Rumo à direita

Filiado ao Republicanos e tendo o PL como aliado e no posto de vice, tudo indica que a gestão de Pazolini terá um tom mais conservador que o modelo de centro e centro-esquerda que comandou o Estado nos últimos anos.

A sinalização de uma guinada à direita ficou visível sobretudo no segundo turno, quando o governador eleito abraçou o bolsonarismo e suas lideranças.

Pazolini ainda não definiu sua equipe de governo e nem revelou qual o espaço que o PL terá em sua gestão, mas sendo o principal partido da coligação do governador eleito, por certo, deverá ser contemplado na indicação de nomes para o 1º escalão e autarquias.

Quando prefeito de Vitória, Pazolini nomeou suas duas vice-prefeitas – Capitã Estéfane (Podemos) e Cris Samorini (PP) – para estarem à frente de secretarias.

O histórico pode ser um indicativo de que a vice-governadora eleita, Bispa Eliane (PL), também poderá ocupar uma cadeira no secretariado. Porém, nada foi divulgado a respeito do assunto.

Em entrevista na manhã desta segunda-feira (26) ao programa ES no Ar, da Rede Vitória, Pazolini disse que ainda não decidiu os nomes que irão compor a gestão. Em breve, deve definir sobre a equipe que fará a transição de governo.

Desafio Lula

A aliança com o bolsonarismo traz para Pazolini um desafio político-institucional urgente: a criação de um canal de diálogo com o presidente Lula (PT), reeleito para o seu quarto mandato.

Não se trata de uma aproximação para fechar alianças ideológicas. Mas, sim para assegurar que o Estado não fique isolado politicamente e continue a captar investimentos federais para atender as demandas capixabas.

O horizonte de obras estratégicas depende diretamente de Brasília. A duplicação de rodovias federais, a continuidade de projetos do PAC e a liberação de aportes para portos, ferrovias e aeroportos são prioridades vitais para o plano de desenvolvimento capixaba – um programa que precisa responder com rapidez às perdas de arrecadação e à transição dos incentivos fiscais impostas pela Reforma Tributária.

A costura desse canal institucional exigirá habilidade política, já que o PT capixaba tomou o rumo oposto durante a campanha.

No segundo turno, o partido divulgou nota oficial vetando qualquer apoio a aliados de Flávio Bolsonaro. Na reta final, o presidente estadual da legenda e ex-prefeito de Vitória, João Coser (PT) – adversário histórico de Pazolini –, declarou voto e pediu apoio aberto a Ricardo Ferraço.

Desafio Ales

A Assembleia que saiu das urnas no último dia 4 tem um perfil próprio: é mais ideológica, tem a maior bancada feminina da história do Legislativo e inicia o próximo ano com muito mais força perante o governo do Estado.

Enquanto os olhos do mercado político acompanhavam de perto o embate acirrado no 2º turno entre Ricardo e Pazolini, os deputados aprovavam uma emenda à Constituição tornando as emendas parlamentares obrigatórias.

E não só isso. A base de cálculo e o valor dos repasses aumentou consideravelmente – quase cinco vezes mais – e, agora, a distribuição deverá ser igualitária entre os 30 deputados.

Até então, as emendas funcionavam como uma espécie de “moeda de troca”, nas articulações entre o Legislativo e o Executivo. O pagamento das indicações era alinhado à postura do deputado na Casa, o que significa dizer que a maior parte das emendas seguia para os aliados.

Para além disso, os deputados também aprovaram emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), mudando a base de cálculo para o reajuste dos orçamentos dos poderes a partir do Orçamento de 2027.

O impacto financeiro ainda não foi definido, mas a previsão – tanto do governo, quanto da Assembleia – é que os repasses do duodécimo para a Ales, Ministério Público, Tribunal de Justiça, Tribunal de Contas e Defensoria Pública aumentem.

Ao que tudo indica, a peça orçamentária que está para ser votada nessa semana deverá sofrer ajustes por parte dos deputados. E, sem a contrapartida das emendas, Pazolini terá um desafio muito maior para construir e manter uma base sólida na Assembleia que lhe garanta governabilidade.

Além da independência financeira da Ales, não se pode ignorar que, entre os quatro deputados mais votados, apenas um é da base aliada de Pazolini – o vereador Pastor Dinho (PL).



FONTE: Folha Vitória


Descubra mais sobre Pauta Capixaba

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.