Os pontos-chave que devem ser abordados entre Lula e Trump na Casa Branca
A convite de Donald Trump, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva visita nesta quinta-feira (7), a Casa Branca, para uma reunião de trabalho que vinha sendo negociada há meses. O encontro ocorrerá por volta das 11h locais (12h de Brasília).
O contato de alto nível só foi possível após gestões diplomáticas secretas, reveladas pelo Estadão, e por intermédio de contatos empresariais. Antes, atritos entre os presidentes culminaram na imposição de tarifas por parte dos americanos aos produtos brasileiros.
Os líderes então estabeleceram um canal direto de diálogo, conversaram pelo telefone, mas nunca chegaram a anunciar um acordo ou parceria
A reunião desta quinta pode destravar esse processo, a partir da manifestação de vontade de ambos a favor de um entendimento, segundo autoridades de governo que acompanharam as tratativas. Não há, no entanto, garantias de que acordos serão selados e apresentados publicamente.
Para estrategistas do governo brasileiro, a reunião tende a ser o ponto de partida para futuros acordos e o impulso dos presidentes.
Blindagem Eleições 2026
Com uma nova foto do aperto de mãos e uma reunião produtiva na Casa Branca, Lula busca um armistício com Trump acerca da eleição presidencial de outubro.
O petista tenta manter a “química excelente” com o americano, conquistada durante um encontro na Malásia ano passado, para constranger qualquer possibilidade de Trump declarar apoio a seu principal adversário nas pesquisas – o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) – e mesmo ingerências por meio de grupos e movimentos políticos da direita radical americana, por meio de redes sociais.
Trump costuma se vangloriar de declarar apoio a candidatos de seu campo, e Lula é um adversário ideológico. O governo brasileiro sabe que a preferência na Casa Branca seria por um nome alinhado, mas aposta que a blindagem pode surgir da boa relação pessoal e de potenciais acordos.
Em julho do ano passado, o americano enviou uma carta a Lula na qual informava sobre a pesada tarifa de 50% aos produtos brasileiros. Nela, Trump simpatizava com o ex-presidente, Jair Bolsonaro, após a condenação no Supremo Tribunal Federal. Ele nunca declarou apoio a Flávio Bolsonaro nas eleições, mas o fez em eleições semelhantes em outros países como Argentina, Honduras e Hungria.
Terras Raras
O acesso a minerais críticos se tornou uma prioridade diplomática do governo americano, e o Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras. O principal objetivo americano é evitar que a China continue avançando no setor brasileiro como tem feito até aqui. Pequim, que domina a mineração e o processamento, já restringiu exportações que afetaram os EUA.
O governo Trump disparou uma iniciativa para formalizar acordos em fevereiro, da qual o Brasil se recusou a participar por ver uma tentativa de formar preços, garantir acesso exclusivo a reservas e isolar Pequim, por meio de uma frente de viés político.
Depois de negociações, Washington se dispôs a investir na extração e beneficiamento no Brasil, como exige o governo Lula. Por enquanto, porém, o País tem assinado apenas memorandos de entendimento em caráter genérico, porque ainda discute uma política nacional para o setor.
Tarifaço
Embora tenha sido derrubado pela Suprema Corte americana, o governo brasileiro entende que o tarifaço de 50% contra o País pode ser restituído, ao menos em parte, a partir das investigações comerciais da Seção 301.
A legislação versa sobre práticas comerciais de outros países consideradas injustas e o governo americano tem utilizado dela para investigar – e possivelmente retaliar – o Brasil por causa do Pix, da 25 de Março e outros temas. A decisão será de Trump. E Lula busca evitar a sobretaxa a partir de julho.
Após um ano de consultas e negociações, essa situação pode ter um desfecho em breve. A segunda investigação, de março passado, parte de suposta falha em conter trabalho escravo, inclusive produtos importados produzidos a partir da prática. Esta ainda tem um longo caminho a percorrer.
Por enquanto, há uma tarifa vigente global de 10% temporária, aplicada desde fevereiro, em parte das exportações – exceto produtos que haviam sido liberados antes, que afetaram o mercado americano e contribuíram no aumento da inflação.
Segurança e Terrorismo
O governo Trump defende a classificação das maiores organizações criminosas latino-americanas como terroristas e já designou dessa forma 14 cartéis da região. O trabalho burocrático foi preparado em Washington para que as duas maiores facções brasileiras entrem na lista: Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV).
O governo brasileiro entende que a classificação não encontra respaldo legal e teme que embase, no limite, uma intervenção militar em território nacional.
A decisão do Departamento de Estado independe da concordância do Brasil, mas o governo Lula negocia há meses os pontos de uma cooperação policial que visa a sufocar tráfico de armas, de drogas e os fluxos financeiros, facilitando a troca de informações de inteligência e congelamento de ativos.
PCC e Comando Vermelho são ‘ameaças significativas’ à segurança regional, diz governo Trump
Os americanos querem cooperação para troca de dados biométricos a fim de controlar imigração. A proposta inicial partiu do Brasil, no fim do ano passado, e vem sendo discutida pelos dois lados. Numa fase intermediária, o Brasil recusou receber deportados do território americano. Lula vai tentar uma nova cartada na reunião com Trump.
Na véspera da reunião, assinou uma nova estratégia nacional antiterrorismo que estabelece como principal prioridade do governo o combate aos cartéis de drogas no Hemisfério Ocidental.
Irã, Cuba e Venezuela
Os temas geopolíticos também geram atrito entre Trump e Lula. O brasileiro tem sido crítico recorrente da guerra deflagrada por Estados Unidos e Israel ao Irã, das ameaças e do bloqueio econômico a Cuba e da operação em Caracas que levou à captura do ditador Nicolás Maduro, da Venezuela.
Os assuntos podem entrar na pauta da conversa, mas não devem ser o foco de atenção dos presidentes. Lula costuma dizer que Trump age como “imperador do mundo” e quer se impor pela força. Ele defende a negociação e a atuação das Nações Unidas, organização que Trump despreza.
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