Óculos de luz verde usados por Arrascaeta chamam atenção: entenda como a tecnologia pode ajudar atletas
Dispositivo utilizado pelo camisa 10 do Flamengo atua sobre o relógio biológico e busca aumentar o estado de alerta. Especialistas, porém, recomendam que terapias com luz sejam usadas com orientação e estratégia.
A imagem de Arrascaeta chegando ao Maracanã antes da partida entre Flamengo e Mirassol chamou atenção por um detalhe pouco comum, o meia uruguaio usava um óculos com uma luz verde acesa.
O acessório não é um óculos esportivo convencional. Trata-se do AVA Circádia, equipamento desenvolvido para atuar sobre o ciclo circadiano, o chamado relógio biológico, por meio de estímulos luminosos. O objetivo é ajudar o organismo a entrar em estado de alerta e adaptar os horários de sono e vigília à rotina do atleta.
A tecnologia ganhou destaque justamente por atacar um dos problemas mais difíceis do esporte de alto rendimento: pedir ao corpo desempenho máximo em um horário em que ele naturalmente começaria a se preparar para dormir. E essa questão é mais importante do que parece.
Por que um jogador de futebol precisaria de um equipamento desses?
Uma partida que começa às 21h30, por exemplo, não termina quando o árbitro apita. Depois dos 90 minutos, ainda existem banho, recuperação física, alimentação, entrevistas, deslocamento e outros compromissos. Para o organismo, entretanto, já pode ser noite há algumas horas.
Jogos noturnos podem atrasar o horário de dormir e reduzir o tempo total de sono. Estudos com atletas de alto rendimento mostram que partidas realizadas à noite estão associadas a alterações importantes no sono e na rotina de recuperação. Uma revisão recente voltada especificamente ao futebol de elite destaca que partidas noturnas podem reduzir significativamente o tempo de sono e interferir no ritmo circadiano.
É justamente nesse cenário que a tecnologia de luz ganha espaço. A ideia não é simplesmente “acordar” o atleta como faria uma xícara de café. O objetivo é enviar ao cérebro um sinal luminoso capaz de influenciar os mecanismos que regulam vigília, sono e ritmo circadiano.
Como funciona o óculos usado por Arrascaeta?
O AVA Circádia utiliza uma fonte de luz verde com comprimento de onda próximo de 480 nanômetros, direcionada aos olhos.
Esse tipo de estímulo luminoso interage com células especializadas da retina que possuem o fotopigmento melanopsina. Essas células participam da comunicação entre a luminosidade do ambiente e o relógio biológico localizado no cérebro.
Pesquisas sobre exposição à luz mostram que determinados comprimentos de onda, especialmente na faixa de aproximadamente 460 a 480 nm, podem aumentar a sensação de alerta e produzir respostas relacionadas ao sistema circadiano.
Na prática, é como se a luz ajudasse o organismo a interpretar uma mensagem:
“É hora de estar acordado e ativo.”
A fabricante associa esse estímulo à melhora do estado de alerta, foco e disposição, além da redução da sonolência após o despertar.
E por que a luz é verde?
A escolha não é simplesmente estética. O comprimento de onda utilizado pelo equipamento foi escolhido para produzir uma resposta biológica por meio da retina. A ciência do sistema circadiano já demonstrou que a luz é um dos principais sinais utilizados pelo organismo para sincronizar o relógio interno com o ambiente.
Uma revisão sistemática com meta-análise publicada no PubMed encontrou evidências de que luz de comprimentos de onda mais curtos, especialmente na faixa de 460–480 nm, pode aumentar alerta subjetivo e alguns indicadores de desempenho cognitivo, sobretudo durante a noite.
Isso ajuda a explicar por que tecnologias de fototerapia estão sendo estudadas no esporte. Mas existe uma diferença importante: a resposta depende do horário, da intensidade, da duração da exposição e das características individuais.
Não basta simplesmente olhar para uma luz verde e esperar um ganho automático de desempenho.
O que isso tem a ver com o desempenho de Arrascaeta?
Para um atleta profissional, pequenas alterações podem ter impacto significativo. Imagine um jogador chegando para uma partida às 21h30 depois de passar o dia inteiro em atividades de recuperação, concentração e preparação. O organismo pode estar caminhando naturalmente para um estado de menor ativação.
O desafio é colocar o corpo em “modo competição” justamente naquele momento. A exposição estratégica à luz pode ser utilizada como uma das ferramentas para modular o estado de alerta e o relógio biológico.
Isso não significa que o óculos sozinho faça o jogador correr mais, chutar melhor ou tomar decisões mágicas em campo. O benefício potencial está em preparar o organismo para estar desperto, atento e funcional no horário desejado.
Não é apenas uma tecnologia para jogadores de futebol
Embora tenha ganhado notoriedade com Arrascaeta, a estratégia pode interessar a diferentes modalidades.
Atletas que treinam ou competem em horários muito diferentes daqueles em que normalmente estariam ativos podem ser candidatos a estratégias de manipulação do ciclo circadiano. Entre os exemplos estão:
- jogadores de futebol em partidas noturnas
- nadadores em competições realizadas à noite
- atletas que viajam entre fusos horários
- corredores e ciclistas com provas em horários incomuns
- atletas que precisam adaptar rapidamente sua rotina durante competições internacionais
- profissionais que trabalham em turnos
- pessoas submetidas a mudanças frequentes de horário
Uma pesquisa realizada com nadadores brasileiros que participaram da preparação para os Jogos Olímpicos do Rio mostrou que a terapia com luz artificial conseguiu atrasar o ciclo sono-vigília e melhorar tempos de reação em testes realizados pela manhã e à noite.
Ou seja, existe fundamento científico para investigar o uso estratégico da luz no desempenho esportivo.
Quais são as principais vantagens?
A primeira vantagem potencial é reduzir a sonolência no momento em que o atleta precisa estar alerta. A segunda está relacionada ao ajuste do relógio biológico. Em determinadas situações, a exposição programada à luz pode ajudar o organismo a se adaptar a uma nova rotina.
Também existe potencial para melhorar a sensação subjetiva de disposição e atenção. Uma revisão sistemática sobre intervenções para melhorar o sono de atletas de elite encontrou evidências de benefícios associados à terapia de luz, embora os autores ressaltem que ainda são necessários estudos mais robustos para estabelecer conclusões definitivas.
É justamente aí que entra um ponto importante: a tecnologia é promissora, mas não deve ser tratada como solução milagrosa.
O óculos substitui o café?
Não necessariamente. A proposta divulgada para o equipamento é oferecer um estímulo luminoso capaz de favorecer o estado de alerta sem depender de estimulantes como a cafeína.
Mas isso não significa que a cafeína tenha sido “aposentada” do esporte. Na verdade, estratégias de cafeína continuam sendo estudadas e utilizadas no alto rendimento. O problema é que seu consumo próximo ao horário de dormir pode prejudicar o sono, exatamente o que um atleta que acabou de disputar uma partida noturna não deseja.
Recomendações recentes para atletas que disputarão partidas noturnas destacam justamente a necessidade de administrar cuidadosamente a cafeína para evitar prejuízos à recuperação do sono.
O ponto mais importante: luz também pode atrapalhar
Aqui está uma das maiores contradições do assunto. A mesma luz capaz de ajudar o atleta a ficar alerta pode ser indesejável quando chega a hora de dormir.
Por isso, o horário da exposição é fundamental. Especialistas em sono e medicina esportiva recomendam exposição à luz em momentos estratégicos durante o dia e redução da exposição a luz intensa no período que antecede o sono.
Em atletas, excesso de luz à noite, telas e ambientes muito iluminados podem dificultar a preparação do organismo para dormir. Em outras palavras: não adianta tentar ganhar alerta às 21h se, algumas horas depois, o atleta não consegue dormir.
Profissionais recomendam cautela
A terapia luminosa não deveria ser encarada como um acessório de uso indiscriminado. O sistema circadiano é extremamente sensível ao momento em que a luz é recebida. Uma estratégia adequada para alguém que precisa acordar cedo pode ser inadequada para uma pessoa que trabalha à noite ou precisa dormir durante o dia.
Diretrizes brasileiras sobre alterações do ritmo circadiano reconhecem a fototerapia e a exposição planejada à luz como ferramentas possíveis, mas também destacam a necessidade de considerar o quadro individual e a existência de limitações nas evidências disponíveis.
Por isso, para atletas de alto rendimento, o ideal é que qualquer protocolo seja definido em conjunto com profissionais de medicina esportiva, fisiologia, preparação física e especialistas em sono.
O relógio biológico precisa de rotina
Outro ponto importante é que nenhum equipamento substitui uma boa rotina de sono. Uma revisão sobre higiene do sono em atletas mostra que fatores como horários regulares, exposição adequada à luz e controle da luminosidade à noite são fundamentais para manter o ritmo circadiano.
Mais recentemente, uma revisão sistemática envolvendo atletas de elite apontou que educação e higiene do sono estão entre as estratégias mais eficazes para melhorar a quantidade de sono, enquanto intervenções como terapia de luz apresentam resultados promissores, mas ainda demandam mais estudos.
Ou seja, a tecnologia deve ser vista como parte de um sistema maior.
Quem pretende usar deve seguir algumas recomendações
Para quem ficou curioso com o equipamento depois de ver Arrascaeta usando o óculos, a principal recomendação é não copiar simplesmente o protocolo de um atleta profissional.
O uso de luz para alterar o relógio biológico precisa considerar horário de exposição, duração, intensidade e objetivo. Entre as recomendações gerais encontradas na literatura estão:
1. Priorizar luz natural durante o dia: A exposição à luz natural, especialmente pela manhã, é uma das formas mais simples de ajudar o organismo a manter um ritmo circadiano estável.
2. Reduzir luz intensa antes de dormir: O período noturno deve ser progressivamente mais escuro, especialmente para quem precisa dormir pouco tempo depois.
3. Manter horários regulares: Variar constantemente o horário de dormir e acordar pode dificultar a estabilidade do relógio biológico.
4. Não utilizar terapia luminosa de maneira improvisada: Equipamentos que emitem luz diretamente para os olhos devem ser utilizados conforme as orientações do fabricante e, quando houver objetivo terapêutico ou alteração importante do sono, com orientação profissional.
5. Não colocar o equipamento acima do sono: Se a tecnologia estiver sendo utilizada para melhorar performance, mas estiver prejudicando a recuperação, a estratégia precisa ser revista.
E quanto custa o óculos?
O AVA Circádia custa aproximadamente R$ 1.200 no mercado brasileiro, segundo informações divulgadas após o episódio que envolveu Arrascaeta.
O dispositivo é indicado para utilização durante poucos minutos, com a recomendação padrão divulgada de uso logo após o despertar. A proposta é justamente utilizar a luz como um sinal para o organismo iniciar o período de vigília.
Cristiano Ronaldo também está ligado à tecnologia
O equipamento faz parte do ecossistema tecnológico da AVA, empresa brasileira fundada por Rodrigo Santana. O empresário mantém uma parceria com Cristiano Ronaldo, que se tornou sócio da companhia e participa do desenvolvimento e direcionamento de tecnologias voltadas ao esporte e recuperação.
A relação ajuda a explicar por que equipamentos desenvolvidos pela empresa passaram a aparecer com atletas de alto nível. O próprio Arrascaeta já havia utilizado anteriormente equipamentos da AVA durante seu processo de recuperação física.
Tecnologia não substitui descanso
Talvez essa seja a principal conclusão dessa história. O óculos de Arrascaeta representa uma tendência cada vez mais presente no esporte profissional: usar tecnologia para tentar sincronizar o corpo humano com as exigências da competição.
No futebol moderno, não basta treinar mais. É preciso saber quando treinar, quando descansar, quando dormir, quando se expor à luz e até quando evitar determinados estímulos.
O relógio biológico passou a fazer parte da estratégia de performance. Mas existe um limite que nenhuma tecnologia consegue ignorar: o corpo precisa dormir.
A ciência já mostra que exposição adequada à luz pode ajudar a organizar o ciclo circadiano e, em situações específicas, melhorar alerta e adaptação. Porém, os resultados dependem do protocolo e do contexto individual.
Por isso, o mais interessante nos óculos usados por Arrascaeta não é simplesmente a luz verde que aparece nas lentes. É o conceito por trás dela.
O futuro do esporte de alto rendimento pode estar cada vez menos em tentar obrigar o corpo a acompanhar o calendário e mais em aprender a ajustar o calendário ao funcionamento do próprio corpo.
Em resumo
- Tecnologia: luz verde próxima de 480 nm direcionada aos olhos.
- Objetivo: atuar sobre mecanismos relacionados ao relógio biológico e estado de alerta.
- Aplicação: especialmente interessante para atletas submetidos a horários noturnos ou mudanças de rotina.
- Sono: o uso precisa ser estrategicamente planejado para não prejudicar a recuperação.
- Recomendação: exposição adequada à luz durante o dia e redução de luz intensa antes de dormir continuam sendo fundamentais.
- Preço: cerca de R$ 1.200.
- Atenção: o equipamento não substitui sono, alimentação, treinamento ou acompanhamento profissional.
Fontes consultadas: estudos científicos publicados em PubMed e literatura especializada em sono, ritmo circadiano e desempenho esportivo, além de informações divulgadas sobre o equipamento utilizado por Arrascaeta.
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