O que a derrota do Brasil pode ensinar ao seu filho


Meu filho me fez uma pergunta depois da eliminação do Brasil. Não era sobre futebol.

— Mãe, como você consegue brincar com uma coisa tão séria?

A pergunta veio logo depois do apito final. O Brasil estava eliminado e, como quase todo brasileiro, fiz uma piada. Sempre fui assim. O humor é o meu jeito de atravessar aquilo que dói. Ele não riu. Ficou me olhando, tentando entender como alguém conseguia fazer graça de uma coisa tão importante. Naquele instante, achei que ele estivesse exagerando. Depois percebi que era eu quem ainda não tinha entendido o tamanho daquela derrota. Para uma criança, uma Copa do Mundo é um assunto sério.

A paixão pelo futebol e a infância

Nunca gostei muito de futebol. Sei que essa confissão soa quase como uma heresia em ano de Copa. Ainda assim, entre um paciente e outro, dei por mim abrindo o celular para acompanhar placares de jogos que nem envolviam o Brasil. Fazia contas, imaginava cruzamentos, tentava entender quem enfrentaria quem. O futebol continuava não sendo exatamente o meu interesse. O que me interessava era acompanhar uma parte da infância acontecendo dentro da minha casa.

A derrota veio contra a Noruega, o que tornou tudo ainda mais incômodo. Não porque perder para a Noruega seja uma humilhação — essa reação diz mais sobre a imagem que fazemos de nós mesmos do que sobre eles. Durante semanas, rimos da remada viking, como se o jogo já estivesse ganho antes mesmo de começar.

Eles entraram em campo para jogar. Nós, em muitos momentos, parecemos entrar para confirmar uma história que já não existe mais. É fácil apontar para as cinco estrelas no peito. Difícil é admitir que, a cada Copa, parecemos um pouco mais distantes delas. Mas seguimos. Somos brasileiros. E há fantasias das quais um país só abre mão quando já encontrou outra para colocar no lugar.

O futebol como lição de vida

Foi então que entendi que aquela noite não falava apenas de futebol. Nós assistimos ao jogo. As crianças assistiram a nós. Enquanto discutíamos arbitragem, procurávamos culpados, fazíamos memes ou transformávamos a derrota em piada, elas observavam outra partida. Observavam como os adultos convivem com a frustração, como tratam um adversário, como falam de quem perde, como reagem quando o desejo encontra um limite. O futebol era o pretexto. A aula era outra.

Quase toda criança brasileira cresce admirando jogadores de futebol. Antes mesmo de entender tática, entende admiração. Aprende nomes, imita comemorações, sonha vestir a camisa da Seleção. Os ídolos ocupam um lugar que vai muito além do esporte. Constituímo-nos, em parte, por identificação. Tornamo-nos quem somos olhando para aqueles que admiramos. Os heróis não ensinam apenas o que fazer. Ensinam, sobretudo, como ser. Pais educam porque querem. Ídolos educam porque não têm escolha.

A reação dos ídolos e o aprendizado das crianças

Foi por isso que uma cena me incomodou mais do que a própria eliminação. É verdade que houve provocação do outro lado — futebol também é jogo psicológico. Mas é justamente aí que o exemplo começa. Ninguém demonstra maturidade quando tudo dá certo. A maturidade aparece quando somos contrariados.

Que me perdoem os fãs de Neymar, mas o que ficará na minha memória não será o gol. Será o “otário”. O Brasil já estava eliminado. Não havia mais classificação em disputa. Restava apenas a maneira de terminar a Copa. Não escrevo isso porque espere perfeição de um jogador de futebol. Nenhum ídolo é perfeito. Escrevo porque milhões de crianças estavam diante da televisão. Naquela noite, elas não aprendiam apenas como um craque joga. Aprendiam como um adulto reage quando perde.

A infância começa com uma ilusão necessária: a de que somos o centro do mundo. Crescer é descobrir, aos poucos, que o desejo não muda a realidade. Que nem sempre vencemos. Que nem tudo acontece porque queremos.

O “otário” me pareceu menos um insulto ao adversário do que uma dificuldade de aceitar que o jogo já tinha acabado. Como se ainda fosse preciso vencer alguma coisa: a discussão, a própria frustração, a fantasia de que o placar não valia para nós. E isso não fala apenas de Neymar. Fala de nós.

Talento individual x trabalho em equipe

Durante muito tempo acreditamos que bastava colocar um gênio em campo. Crescemos vendo jogadores capazes de decidir sozinhos uma partida e acabamos confundindo talento com destino. O futebol mudou. O mundo inteiro treinou, estudou, profissionalizou-se. Nós continuamos esperando que um herói resolvesse aquilo que hoje depende de equipe, disciplina e preparo. A nossa maior dificuldade nunca foi perder. Sempre foi aceitar que o mundo mudou sem pedir autorização à nossa memória afetiva.

Na manhã seguinte, as crianças vestiram o uniforme e foram para a escola. Em algum lugar do país, milhões de outras fizeram o mesmo. A Copa tinha acabado, para o Brasil. A pergunta do meu filho, não. Ele quis saber como eu conseguia brincar com uma coisa tão séria. Hoje eu saberia responder. O humor sempre foi o meu jeito de atravessar o que dói. A coisa séria nunca foi o jogo. Era o que ele aprendia me vendo rir.



FONTE: Folha Vitória


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