O duelo inesperado e as estratégias dos candidatos ao governo no debate


Foto: Thiago Soares/Folha Vitória

O debate da Rede Vitória com os candidatos ao governo do Estado não se limitou a apresentar as propostas de Helder Salomão (PT), Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB).

O confronto, realizado na noite de ontem (21), expôs as estratégias de cada um para conquistar o eleitor nessa reta final de campanha. E, além disso, revelou onde estão os principais pontos de tensão da disputa.

Ricardo Ferraço fez novos acenos ao eleitorado de direita e conservador, Pazolini apostou na comunicação direta com quem estava em casa e Helder escolheu confrontar o governador em temas sensíveis, levando para o debate a disputa pelo eleitorado de centro e centro-esquerda.

Mas o que mais chamou a atenção foi a dinâmica dos confrontos. Embora Ricardo e Pazolini sejam, à primeira vista, os candidatos que disputam o mesmo eleitorado, foi com Helder que o governador travou os embates mais duros da noite.

Segurança pública, caso Apex, relação com Lula e legado da atual gestão deram o tom de uma disputa que, mais do que definir vencedores e perdedores, ajudou a revelar as apostas e caminhos escolhidos por cada candidatura.

Disputa pelo voto da direita conservadora

Ricardo Ferraço iniciou o debate fazendo um aceno ao eleitorado de direita e conservador – mais um, dos que ele já tem feito desde a pré-campanha como estratégia para ampliar seu eleitorado.

Ao questionar Helder Salomão sobre a redução da maioridade penal – um tema muito mais pertinente ao debate nacional do que estadual – Ricardo falou para um eleitor identificado com o bolsonarismo e com o discurso mais linha-dura na segurança.

Um governador não tem o poder de mudar a Constituição Federal para reduzir a maioridade penal – na verdade, ainda não há consenso entre os juristas se o tema é ou não cláusula pétrea e se é passível de mudança pelo Congresso.

Mas o que Ricardo demonstrou, ao defender o tema, é que está disposto a disputar cada voto da direita com o adversário Lorenzo Pazolini – candidato apoiado pelo PL e pelo presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).

A escolha de Helder como alvo de uma pergunta sobre segurança pública – a maior preocupação da população capixaba – também foi estratégica.

Ao mirá-lo, Ricardo acabou expondo o petista a um tema sensível para o campo progressista e tratou de construir um muro para separá-lo de qualquer associação com a esquerda.

Confronto nervoso

O embate entre Ricardo e Helder já na primeira pergunta do debate foi um prenúncio do que viria pela frente. O debate é, naturalmente, espaço para propostas e ideias, mas também é o momento em que os candidatos colocam os adversários contra a parede e testam seus discursos.

E, nessa seara, a surpresa da noite foi a temperatura do confronto entre Ricardo e Helder. Quem esperava que o embate mais duro viesse da disputa entre Ricardo e Pazolini viu o governador e o petista protagonizarem os momentos mais tensos do debate.

Após a discussão sobre a redução da maioridade penal, Helder questionou Ricardo sobre o caso Apex – que chamou de “Master Capixaba” – e perguntou ao governador sobre o impacto da crise na plataforma de investimentos para o desenvolvimento econômico capixaba.

Ricardo respondeu num tom um pouco acima: relacionou o maior escândalo financeiro do País protagonizado pelo banco Master e pelo banqueiro Daniel Vorcaro com a gestão Lula – além de repetir que não há recurso público envolvido nas ações da empresa.

Helder não deixou barato. Além de jogar o escândalo para o colo da família Bolsonaro, disse que o governador “gosta de esconder as coisas que o presidente Lula faz para o Espírito Santo”, citou que Ricardo teria ido “escondido” receber o petista no aeroporto e cravou que “isso não é posição de estadista, é de quem fica em cima do muro”.

O petista ainda citou – naquele típico tom de jogar na cara – o episódio em que Lula, em seu primeiro mandato, antecipou o pagamento dos royalties de petróleo para o Estado sanar contas públicas e sair do vermelho e fez novas insinuações envolvendo Ricardo e o caso Apex.

Na tréplica, usando de ironia, Ricardo rebateu o petista, disse que o candidato estava “nervoso” e afirmou que Helder estaria pegando carona nas realizações do governo do Estado.

O embate continuou nas considerações finais. Helder usou seu tempo para voltar ao assunto e contra-atacar: disse que quem estaria pegando carona nas conquistas do governo seria Ricardo e ainda o chamou de “coadjuvante”, fazendo referência ao ex-governador Renato Casagrande (PSB).

A surpresa do confronto mais duro entre os dois vem, sobretudo, porque há cerca de seis meses, o PT fazia parte da gestão estadual – liderada por Casagrande.

Da parte de Helder, a estratégia do ataque tem como objetivo conquistar os votos do eleitorado de centro e centro-esquerda que estão indo para Ricardo.

Já do lado do governador, a leitura é de que ele não quer associação com o PT – mesmo que tenha sido vice-governador de uma gestão que contou com o partido na base de apoio.

Já o campo de Pazolini, ouvido pela coluna, avaliou que os dois estariam disputando uma única cadeira no segundo turno.

Fair play

Apesar do debate contar com alguns momentos mais acalorados, não teve nenhum episódio de ataque à honra que motivasse pedido de direito de resposta. No início e no final do evento, os três se cumprimentaram e chegaram a trocar algumas palavras, de forma muito cordial.

Segurança Pública dominou

O tema da segurança pública dominou a maior parte do debate, com um jogo de números, indicadores e posição do Espírito Santo em rankings regionais e nacionais.

Além do debate sobre redução da maioridade penal, temas como feminicídio, combate às facções criminosas, recomposição dos quadros da Polícia Militar e da Polícia Civil, crimes patrimoniais e o mérito das conquistas foram abordados entre os candidatos.

Num dos confrontos diretos, Pazolini criticou a taxa de feminicídios no Estado – que aumentou nesse ano em 4,5% com relação ao ano passado. Na resposta, Ricardo deu uma invertida e comparou os números com índices do estado de São Paulo, governado pelo Republicanos, partido de Pazolini. Segundo ele, no estado paulista o aumento foi de 98% em cinco anos.

O alvo principal

Como já era de se esperar – tendo em vista que é o candidato que está na gestão e prega a continuidade –, Ricardo Ferraço e a atual gestão foram os principais alvos de Pazolini e Helder.

Mesmo quando o confronto era entre os dois pleiteantes que pregam a mudança na corrida ao Palácio Anchieta, as falas eram direcionadas ao atual governador, como no debate sobre uma eventual privatização do Banestes e sobre a dívida pública do País.

Media training em dia

Na disputa pela atenção do eleitor, Pazolini foi o que mais mirou a câmera e se dirigiu diretamente ao público de casa. Um aceno calculado de aproximação com o telespectador.

Tirada matemática

Ricardo usou seu número de urna (15) não somente para pedir votos nas considerações finais, mas também para se colocar à frente dos adversários: “Vejam, 15 é muito mais que 13, é muito mais que 10. Porque 15 é Ricardo Ferraço”.

Bandeiraço de militantes e cabos eleitorais

Do lado de fora, nas calçadas e na rua de frente à sede da TV Vitória, militantes e cabos eleitorais – principalmente do candidato Ricardo Ferraço – marcaram presença.

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FONTE: Folha Vitória


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