O Brasil precisa de outras Marias Bethânias
Faz 80 anos, no dia 18 de junho, que a pequena e negra cidade de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo da velha Bahia, regalou ao Brasil aquela que viria a ser a sua maior, mais longeva e premiada das intérpretes e artistas. Sei o peso do superlativo e sustento-o sem receios. Mais de seis décadas de uma carreira autorizam-me, e uma vida inteira a acompanhá-la, da plateia e de perto, deu-me provas de sobra. Carreira que nunca estremeceu nem viu crise, e que se renova à medida que o público fiel de Maria Bethânia se renova.
A sua obra explica tudo, pois Bethânia cantou tudo. Pegou a canção de amor, a modinha, o samba de roda, o sertão, misturou com a mais alta literatura e poesia das duas margens lusófonas do Atlântico. Fernando Pessoa e João Cabral de Mello Neto convivem nos seus espetáculos com o teatro de Nelson Rodrigues em estrutura de ópera e recheado de textos declamados entre músicas, como se a palavra falada fizesse parte da partitura. Quem a viu em cena percebe que está diante de uma atriz dramática cuja voz e o canto são um veículo de expressão. O palco transforma-se em altar e tablado para os seus pés descalços, território onde tradição oral e popular conversam de igual para igual com cânone literário.
O contralto terroso, marca de tantas vozes baianas, ganhou nela uma dimensão única. Bethânia canta o Brasil, o Recôncavo, o amor com um timbre que parece subir da terra. Gerações de intérpretes aprenderam com ela a dizer uma letra, a respirar uma frase, a deixar o silêncio trabalhar. Poucos percebem que metade do que Bethânia faz acontece naquilo que ela não canta. Vinícius de Moraes, quando a conheceu na década de 1960, disse que era uma árvore em combustão. Clarice Lispector, quando a saudou no camarim pela primeira vez, bradou estalando-lhe os dedos: “Faíscas! Faíscas no palco”.
Honrarias acompanham-na. Bethânia é doutora honoris causa pela Universidade Federal da Bahia, desde 2016, e pela Universidade Federal do Ceará, desde 2024, ambas saudando a voz e a poesia como patrimônios imateriais do país. Nenhum outro nome foi tão homenageado na história do Prêmio da Música Brasileira.
O cinema descobriu-a cedo. Em 1966, aos 20 anos e acabando de chegar ao Rio para substituir Nara Leão no show Opinião, Júlio Bressane e Eduardo Escorel já apontavam a câmara para aquela estreante em Bethânia Bem de Perto, hoje listado pela crítica entre os 100 melhores documentários brasileiros de todos os tempos. Mais tarde vieram Música é Perfume, Pedrinha de Aruanda, Maria: Ninguém Sabe Quem Sou Eu e Fevereiros, filmografia que pouquíssimos artistas podem reivindicar e que Salvador reúne agora na mostra dedicada aos seus 80 anos.
A palavra cantora fica muito pequena para descrevê-la porque Bethânia é uma entidade. Uma força da natureza.
Custa-me, porém, olhar para a paisagem sonora que hoje domina o país. Sinto a ausência de ambição, de arte e de densidade. Há quem chame a isto saudosismo de velho, e rejeito o rótulo, porque o defeito talvez nem esteja nos artistas de agora. Aquele sistema que foi capaz de formar uma artista densa como Bethânia já morreu, mesmo com ela de pé, prolífica e cada vez melhor.
Bethânia só foi possível num Brasil que acreditava na canção como acesso a Sophia de Mello Breyner, Clarice Lispector, Guimarães Neto. E num mercado que dava tempo aos espetáculos para amadurecer e premiava-os pela exigência. Esse mundo desmontou-se nos últimos anos.
Boa parte daquilo que chamam de “música” que circula hoje foi desenhada para durar 3 semanas, o prazo que o algoritmo concede antes de nos empurrar a próxima novidade descartável e sem qualidade. A perda verdadeira mora aí, no desaparecimento das condições que tornaram uma Maria Bethânia possível.
Não peço cópias. O que nos falta é a capacidade de voltar a gerar artistas da mesma estatura, e isso depende de escolas, palcos, leitura, de amor ao conhecimento e à arte por um público minimamente letrado e sensível a ponto de exigir mais excelência e menos lixo. Outras Marias Bethânias só virão quando reconstruirmos aquela infraestrutura que foi demolida enquanto aplaudíamos a desconstrução na passividade do silêncio.
O que me resta dizer é coisa de fã, e digo-o sem o menor pudor. Assisti a Bethânia ao vivo em vários cantos do Brasil, e saí sempre com a sensação de ter testemunhado algo que as gerações futuras nos hão de invejar. Deixei-lhe prendas à sua porta em São Conrado, no Rio, e em Salvador. Acompanhei festas de rua em Santo Amaro só para estar perto dela. Na missa dos 100 anos de Dona Canô, lá estava eu, o mesmo que mais de uma vez foi recebido com imenso carinho na sua casa pela extraordinária matriarca que pôs no mundo artistas do quilate de Bethânia e Caetano e netos tão talentosos como Moreno, Belô e Jota Velloso.
Somos mesmo uma geração de privilegiados. Coube-nos viver o mesmo tempo em que Maria Bethânia surgiu e segue em plena atividade, melhor a cada novo trabalho. Uma sorte que a história não franqueou.
Embora a imortalidade já a tenha alcançado, desejo-lhe outros novos 80 anos. A missão que recebeu nesta Terra está mais do que muito bem cumprida.
Muito obrigado, Maria Bethânia Viana Teles Veloso do Brasil.
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