O Brasil não pode viver em campanha!
A visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao Espírito Santo na última semana ocorreu em meio a uma sequência de anúncios econômicos e programas federais que recolocam em debate um velho hábito da política brasileira: o uso da máquina pública como instrumento de recuperação de popularidade e fortalecimento eleitoral.
Nos últimos meses, o governo federal colocou em marcha uma série de medidas de forte impacto popular. Ampliação do Desenrola, possibilidade de uso do FGTS para renegociação de dívidas, subsídios ao gás de cozinha, expansão do Minha Casa Minha Vida, crédito para motoristas de aplicativo, financiamentos habitacionais e até o recuo na taxação de compras internacionais compõem um pacote claramente voltado ao bolso do eleitor.
São iniciativas que dialogam com dificuldades reais da população. O brasileiro está endividado, perdeu poder de compra e enfrenta dificuldades crescentes para equilibrar o orçamento doméstico. Em um país desigual, políticas de auxílio e incentivo econômico não apenas são legítimas como muitas vezes necessárias.
O problema começa quando a política pública deixa de ser instrumento de planejamento nacional para se transformar em ferramenta permanente de disputa eleitoral.
O Brasil conhece bem essa lógica. Governos de diferentes correntes ideológicas recorreram, ao longo das últimas décadas, ao mesmo expediente: expansão de gastos, crédito facilitado, subsídios e aumento da presença estatal em momentos politicamente estratégicos. O efeito imediato costuma aparecer rápido. A conta, quase sempre, chega depois.
E ela chega na forma de aumento da dívida pública, pressão fiscal e, inevitavelmente, mais impostos. O Brasil já convive com uma carga tributária sufocante, que atingiu 32,4% do PIB em 2025 (o maior patamar da série histórica do Tesouro Nacional), além do comprometimento crescente das próximas administrações, independentemente de quem vença as eleições.

O esforço de reconstrução de popularidade do governo também se reflete na comunicação. Reportagem do Estadão revelou que o governo federal dobrou os gastos com publicidade no Instagram e Facebook para divulgar programas e ações oficiais. Em um ambiente político já claramente antecipado para 2026, a combinação entre expansão de benefícios, ocupação do noticiário e fortalecimento da propaganda digital reforça a sensação de um país em campanha permanente.
Não se trata de condenar programas sociais. Trata-se de discutir sustentabilidade. Nenhum país consegue construir estabilidade econômica duradoura quando decisões fiscais passam a obedecer prioritariamente ao calendário político.
O Brasil precisa romper com a cultura do curto prazo e voltar a discutir crescimento sustentável, produtividade, segurança jurídica e equilíbrio das contas públicas com a mesma intensidade com que anuncia novos programas e benefícios.
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