Mais ideológica e maioria pró-Ricardo: o perfil da nova Assembleia Legislativa


Sede da Ales (Foto: Kamyla Passos/Ales)

A nova Assembleia, eleita no último domingo e com posse marcada para fevereiro, desembarcará no Palácio Domingos Martins com um perfil mais ideológico e marcado pela presença de representantes de peso dos principais partidos que polarizam a política nacional.

Ao menos um terço da Casa é formado por nomes declaradamente alinhados às alas mais convictas do espectro político – seja à direita ou à esquerda.

A força desse grupo ficou demonstrada logo no topo da apuração, com os quatro parlamentares mais votados do Estado: Camila Valadão (Psol), a campeã geral de votos, e Karla Coser (PT) puxam a fila progressista; já Capitão Assumção (PL) e Pastor Dinho (PL) lideram a ala conservadora.

O tamanho da direita tradicional e conservadora é a grande marca da próxima legislatura. A começar pelo PL, que repetiu o feito de 2022 e elegeu a maior bancada partidária da Ales, com seis deputados – há quatro anos foram cinco eleitos.

Além de Assumção e Pastor Dinho, o partido garantiu as vagas do empresário Thiago do Casal Policial, do deputado reeleito Danilo Bahiense e dos vereadores Darcio Bracarense (Vitória) e Vitor Louzada (Colatina). Soma-se ao grupo o vereador de Vitória Davi Esmael (Republicanos), também eleito deputado para a próxima legislatura.

Todos ostentam um discurso fortemente alinhado ao campo conservador – com gradações que vão do pragmatismo ao radicalismo da extrema-direita.

Do outro lado, o campo progressista também se fortaleceu. O PT expandiu sua representação de dois para três parlamentares, elegendo a vereadora de Cariacica Açucena e o agricultor Julio da Fetaes, ao lado de Karla Coser. Somados a Camila Valadão, a bancada de esquerda terá quatro cadeiras.

Embora numericamente modesta em um plenário dominado pelo centro e pela direita, trata-se de uma bancada articulada, combativa e com alto potencial para protagonizar os debates – a julgar pela atuação das duas vereadoras e da deputada em seus respectivos mandatos.

Tudo indica que a Assembleia do ano que vem será palco de embates acalorados e enfrentamentos ideológicos durante as sessões. Até hoje, a Casa tinha conseguido passar ilesa das rivalidades nacionais, salvo alguns raros episódios que pouco interferiram nos trabalhos do Legislativo.

Maioria eleita na base de Ricardo

Convenção partidária do AGIR
Renato Casagrande, Flávio Pires, Hudson Leal e Ricardo Ferraço na convenção do AGIR. Foto: Divulgação/AGIR

Por mais que os embates ideológicos possam roubar a cena do Parlamento vez ou outra, o cálculo que o governador que for eleito no próximo dia 25 fará é o da governabilidade: Quantos deputados farão parte da base? Qual o tamanho da oposição? Quem integrará o “centrão” e será o fiel da balança nas votações mais apertadas?

A título de hoje, levando-se em consideração os partidos dos deputados eleitos e reeleitos, o governador Ricardo Ferraço (MDB) leva vantagem e, se for reeleito, tende a ter uma relação mais fácil com a nova Assembleia.

Dos 30 eleitos, 18 são de partidos que integram a coligação de Ricardo: MDB, Podemos, PSB, União Brasil, PP e Agir. No primeiro turno, alguns fizeram dobradinha com a campanha do governador e devem continuar na rua pedindo votos nessa segunda etapa.

Porém, isso não significa que todos os eleitos da coligação vão se alinhar automaticamente a Ricardo – nem agora e nem numa eventual segunda gestão.

Isso vai depender das articulações que o governador fará ao longo dessa semana e do poder de convencimento dele e do núcleo duro da base aliada – uma tarefa que pode ficar mais difícil por conta do resultado das urnas que colocou Ricardo em desvantagem.

Por outro lado, Ricardo também pode contar com o apoio de deputados eleitos em outras coligações, como os petistas – o PT ainda vai definir que rumo tomará nesse segundo turno – e ser beneficiado por outros fatores.

Um exemplo é que nem todos os deputados eleitos do PL – que a princípio, seriam oposição a uma eventual gestão de Ricardo – são aliados de Pazolini. Assumção, por exemplo, é oposição ao ex-prefeito desde a campanha de 2024 e dificilmente irá apoiá-lo agora ou num eventual governo.

Pazolini: Base menor, mas que pode aumentar

Muribeca, Pazolini e Erick Musso

Aplicando a mesma conta a Pazolini – de colocar na ponta do lápis os parlamentares que foram eleitos por partidos de sua coligação –, a preço de hoje, o ex-prefeito teria sete deputados ao seu lado.

Seriam todos do PL – com exceção de Capitão Assumção – e os dois do Republicanos: o vereador de Vitória Davi Esmael e o deputado reeleito Pablo Muribeca.

Esse grupo, porém, não é estático e a possibilidade de ganhar novos integrantes aumentou consideravelmente após a votação do primeiro turno – Pazolini teve um bom desempenho e passou para a segunda etapa do pleito com uma vantagem de 15 pontos percentuais à frente de Ricardo.

Num parlamento movido pelo pragmatismo – onde estar próximo à caneta do Executivo, garantir espaço na gestão e assegurar emendas aos seus redutos costumam pesar mais do que fidelidades partidárias –, o vislumbre de que Pazolini possa sair vitorioso do pleito pode redesenhar o cenário na Assembleia desde agora.

Nos bastidores, aliados de Pazolini já estariam em campo para converter aliados ou, ao menos, neutralizar o apoio ao outro lado.

Não será surpresa se, daqui até o dia 25, muitos deputados eleitos “mergulharem” à espera do resultado final das urnas. Para Pazolini, seria o melhor dos mundos. Mas para Ricardo, que precisa ganhar e virar voto para reverter a desvantagem, seria mais um desafio dos muitos que ele precisa superar nesse momento.

Oposição acima de todos

Camila Valadão durante sessão na Ales (foto: Ellen Campanharo/Ales)

Independentemente de quem levar o Palácio Anchieta, a campeã de votos da Assembleia deve ir para a oposição. Camila Valadão e seu partido, o Psol, apoiaram Helder Salomão (PT) ao governo do Estado, com críticas duras aos outros dois principais candidatos.

Quando foi vereadora de Vitória, Camila integrava a ala da oposição ao então prefeito Pazolini. Nos seis meses de gestão de Ricardo, a deputada fez duras críticas ao governador.

Questionada pela coluna sobre qual seria sua posição no parlamento com relação a Ricardo e a Pazolini, Camila respondeu sem titubear: “Provavelmente oposição. Ainda vou discutir no partido, mas imagino que sim”.

Em tempo: A representação partidária na Assembleia diminuiu. Hoje, 13 partidos contam com cadeiras no Legislativo. A partir de fevereiro do ano que vem serão 10. Perderam espaço: Democracia Cristã, PDT e PSD.

Nos bastidores, essa redução é positiva para o chefe do Executivo, porque facilita as articulações e negociações no parlamento.

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FONTE: Folha Vitória


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