Lusofobia pseudointelectual absolve político de estimação
*escrito tencionalmente em português
Acho que nasci sob a mesma sentença de Carlos Drummond de Andrade, e “um anjo torto desses que vivem na sombra disse: Vai, Fabrício! ser gauche na vida“. E ainda sou literalmente canhoto, ao que anjo sombrio seja chamado folcloricamente de “o canhoto”. Também não tenho culpa de ser conterrâneo de Gregório de Matos Guerra. Mas facto é que tendo ou não algo do “Boca do Inferno” dentro de mim, decidi retomar a discussão de domingo passado.
Há uma pergunta que o discurso lusofóbico pseudointelectual brasileiro nunca formula: se não fosse Portugal, quem estaria aqui nestas terras? E que formato(s) o(s) mapa(s) teria(m)? Que nome(s) e fronteiras teria(m)?. Tivesse sido território espanhol, seguramente seria um monte de paizecos.
O Tratado de Tordesilhas, assinado em 1494, já havia dividido o mundo ao meio entre Portugal e Espanha antes mesmo de Cabral avistar o Monte Pascoal, à beira do qual tive o privilégio de nascer e crescer.
A França tentou fixar-se em terras brasileiras em duas ocasiões, com a França Antártica no Rio de Janeiro (1555-1567) e a França Equinocial no Maranhão (1612-1615), sendo expulsa em ambas pelos nossos ancestrais lusitanos em acordo com os nossos também antepassados Tupinambás, Tupiniquins e Temiminós. A Holanda ocupou o Nordeste entre 1630 e 1654 e foi igualmente varrida, em grande parte pela resistência local dos nossos antepassados.
A colonização da América portuguesa foi uma tragédia real e documentada porque qualquer imperialismo e colonização é uma tragédia. Contudo, não havia alternativa a ela. O expansionismo europeu do século XVI e a partilha geopolítica do planeta foi abençoada pela Igreja em Tordesilhas e deu como certa a presença de ibéricos neste território.
Era inevitável.
A única variável era a bandeira dos primeiros navios
Vale a comparação entre modelos coloniais. A colonização inglesa protestante, evangélica, da América do Norte resultou no que o etnólogo Ward Churchill classificou como “o mais prolongado genocídio que a humanidade regista“¹: de aproximadamente 25 milhões de indígenas pré-contacto, restaram menos de 2 milhões. Uma redução superior a 90%. A Trilha das Lágrimas, de 1830, forçou 100 mil nativos ao abandono compulsório das suas terras, com estimativa de 15 mil mortos durante o percurso.²
No que hoje chamamos de EUA, o extermínio total foi política de Estado, organizada, financiada e celebrada. O genocídio sistemático coordenado pela Coroa inglesa protestante, evangélica, como política de limpeza étnica, foi um traço distintivo do modelo anglo-saxónico, ausente da matriz católica luso-brasileira.
Os colonizadores evangélicos da América, por sinal, caprichavam nas bênçãos bíblicas ao genocídio de indígenas. O governador da Colónia de Plymouth celebrou o Massacre de Mystic (1637) durante a Guerra dos Pequots (1636–1638) registando que ver os nativos a arder na fogueira era um “sacrifício de odor suave” a Deus, que tinha agido para “dar-lhes a vitória”.
Na América lusitana, a violência foi igualmente real e inaceitável, mas paralela a uma miscigenação e catequização que também produziram controlo e apagamento cultural.
Antes de 1500, estima-se que entre 3 e 5 milhões de nativos habitavam o território.³ O Censo IBGE de 2022 regista hoje 1.693.535 pessoas que se identificam como indígenas.⁴ A violência foi real e o número acusa. Em 2023, foram registadas 363 mortes de Ianomâmis, causadas principalmente por desnutrição e malária associadas ao avanço do garimpo ilegal de brasileiros.⁵
Quem extermina o Ianomâmi hoje, após 204 anos de independência, age em território soberano brasileiro e é acoitado pelo silêncio de políticos de estimação com as mesmas bênçãos das igrejas cristãs brasileiras. Todos muito bem remunerados e sem qualquer sotaque lusitano.
A terra demarcada enfrenta ainda uma ameaça que o discurso lusofóbico pseudointelectual esconde por conveniência e cumplicidade: a ocupação por facções. Segundo estudo do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 22 organizações criminosas disputam territórios indígenas em todos os estados da Amazónia Legal, com presença confirmada nas Terras Indígenas Ianomâmi, Vale do Javari, Munduruku, Kayapó e Sararé.⁶
O PCC controla a logística do garimpo ilegal na Terra Ianomâmi, usa aviões de transporte de ouro para escoar droga e recruta adolescentes pelo mesmo método que emprega nas periferias de São Paulo. O CV impõe tributos e regula a entrada de pessoas e insumos na TI Sararé.⁷ Nada disto tem a ver com Portugal.
A identidade indígena é igualmente explorada por brasileiros. Em janeiro de 2026, a PF deflagrou a Operação Monã no meu estado natal, investigando um esquema em que cidadãos de outras etnias assinavam declarações falsas de indígenas, validadas pela própria Funai, para receber aposentadoria rural e salário-maternidade do INSS.⁸
Em 2024, o Ministério Público Federal atuou na Universidade Federal de Rondónia a pedido de lideranças Karitiana, após um estudante brasileiro conseguir liminar judicial para ocupar uma vaga reservada por cota indígena no curso de Direito.⁹
A causa dos povos originários tem sido lucrativamente instrumentalizada por brasileiros sem qualquer vínculo étnico real com eles, para fins que vão desde o benefício previdenciário, desapropriação de terras a vagas universitárias. E a culpa é mesmo de Portugal?
Se não tens 100% de DNA indígena, és mais um corpo estranho neste solo
Negros, brancos, amarelos e mestiços estão aqui como continuação consciente de um projeto dos nossos ancestrais portugueses. “Fomos colonizados por Portugal” é só a hipocrisia de quem existe graças ao que os próprios antepassados não-indígenas fizeram dentro desse projeto. Se falas e escreves em português, e não em tupi-guarani, é porque o corpo invasor desta terra, escravizado ou livre, és tu!
Portanto, não escondas a tua responsabilidade de 204 anos sob um discurso dissimulado com verniz de conhecimento.
Os nossos ancestrais portugueses não invadiram Brasília, nem a Avenida Faria Lima, nem interroperam uma sessão parlamentar em tupi-guarani para nos colonizar. Não são eles que operam o garimpo hodierno em terra Ianomâmi. Não administram as facções criminosas nem milícias. Não foram policiais lusitanos que mataram os negros, culpados ou inocentes, em 82,7% das intervenções policiais letais de 2023¹⁰.
O Brasil é um país completamente autónomo há 204 anos. Sejamos responsáveis! Portugal não nos deve absolutamente nada. Herdamos e hoje somos os donos de tudo o que construíram aqui. Se há erros, a culpa é minha, é tua, é nossa. O que vais fazer com o que fizeram de ti? Vitimizar-te cinicamente e transferir a tua responsabilidade aos teus tetravós e pentavós após 204 anos de maioridade?
A dupla violência histórica contra afro-descendentes
Portugal construiu o Brasil com mão de obra escravizada. O Brasil independente manteve-a por conveniência por mais 66 anos, tornando-se o último país do Ocidente a aboli-la, em 1888.¹¹ Foram 4,8 milhões de africanos trazidos à força ao longo de 358 anos.¹²
E se achas que a escravidão acabou, lembra-te que a abolição chegou sem a mesma reforma agrária promovida pelo governo brasileiro independente para italianos e alemães. Largados à própria sorte, sem acesso à educação, sem qualquer política de inserção no tecido social.¹³ E assim, a senzala virou favela. A favela virou voto. O voto virou curral eleitoral… de brancos. Já te perguntaste por que 55% dos brasileiros são negros ou pardos, mas 75% do Senado e 72% da Câmara são brancos? E não estamos mais em 1888.
O Brasil tem com o negro uma dívida muito maior do que Portugal. É o Brasil que, sob uma falsa liberdade no papel, ainda o condena ao tráfico, à educação básica precária, à mão de obra com salário de semi-escravo, à vida na favela, à invisibilidade institucional e ao extermínio. O Atlas da Violência 2026 prova que os homicídios de pessoas negras representam 77% do total de assassinatos no país.¹⁴
A irresponsabilidade do discurso pseudonacionalista
A lusofobia pseudointelectual não ampara o negro na favela, nem o indígena no garimpo, ou o nordestino na periferia de São Paulo. Apenas desvia a responsabilidade pelo maior abismo social do planeta enquanto encobre a podridão do teu partido político de estimação. O mesmo que lucra com as terras indígenas, que gere o orçamento da segurança pública para matar negros, que é financiado pela facção ou pela milícia que recruta na favela.
O discurso lusofóbico, cinicamente difundido nas escolas e faculdades brasileiras por professores com apelidos lusitanos como Silva, Souza, Vilela, Machado, Chaves, Pontes, Antunes, Ribeiro, Andrade ou Castro, só visa a cauterizar as próprias mentes e convencer as massas de que o inimigo mora longe, é inalcançável, já morreu e virou História. Fingem não serem descendentes e herdeiros de exploradores e explorados estrangeiros nas terras deste país continental, enquanto protegem as suas mascotes políticas que governam livremente o Brasil há 204 anos. Brasil esse que é uma invenção dos seus avós em algum grau.
Não há intelectualismo algum nisso. O que há é uma narrativa pseudointelectual de uma classe média que empacota um vitimismo irresponsável em linguagem académica, terceriza a culpa e a responsabilidade aos próprios ancestrais, como se não o fossem, e vende-a como uma identidade nacionalista que beira o nazi-fascismo.
Nomeadamene, essa narrativa parte tanto da “direita” quanto da “esquerda progressista”, se é que existem no Brasil, de facto.
Em vez de “fomos” colonizados e explorados por Portugal, por que não experimentas dizer “SOMOS os colonizadores, os invasores, os estrangeiros, e há 204 anos continuamos a saquear o Brasil assim como fizeram os nossos antepassados”?
Entretanto apontas para Lisboa, viras as costas à tua Brasília.
*Sim, foste plenamente capaz de ler em PORTUGUÊS
NOTAS E REFERÊNCIAS
¹ CHURCHILL, Ward. A little matter of genocide: holocaust and denial in the Americas 1492 to the present. San Francisco: City Lights Books, 1997. p. 1-2.
² ENCYCLOPÆDIA BRITANNICA. Trail of Tears. Disponível em: https://kids.britannica.com/students/article/Trail-of-Tears/338711. Acesso em: 2 jun. 2026.
³ SURVIVAL INTERNATIONAL. Descolonize a História das Américas. Disponível em: https://www.survivalbrasil.org/campanhas/descolonizeahistoria. Acesso em: 2 jun. 2026.
⁴ IBGE. Censo Demográfico 2022: povos indígenas. Rio de Janeiro: IBGE, 2023. Disponível em: https://www.ibge.gov.br. Acesso em: 2 jun. 2026.
⁵ GREENPEACE BRASIL. Dois anos da crise Ianomâmi: uma emergência que não pode ser esquecida. 23 jan. 2025. Disponível em: https://www.greenpeace.org/brasil/blog/dois-anos-da-crise-yanomami-uma-emergencia-que-nao-pode-ser-esquecida. Acesso em: 2 jun. 2026.
⁶ FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Cartografias da Violência na Amazónia. São Paulo: FBSP, 2023. Disponível em: https://amazoniareal.com.br/faccoes-na-amazonia. Acesso em: 2 jun. 2026.
⁷ CHAGAS, Rodrigo apud CLIMAINFO. Acções de facção fortalecem permanência de garimpeiros na Terra Ianomâmi. 4 mai. 2023. Disponível em: https://climainfo.org.br/2023/05/04/acoes-de-faccao-fortalecem-permanencia-de-garimpeiros-na-terra-yanomami. Acesso em: 2 jun. 2026.
⁸ AGÊNCIA BRASIL. Polícia Federal investiga fraude no INSS com falsos indígenas. 29 jan. 2026. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2026-01/policia-federal-investiga-fraude-no-inss-com-falsos-indigenas. Acesso em: 2 jun. 2026.
¹⁰ FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024. São Paulo: FBSP, 2024. p. 48.
¹¹ SCHWARCZ, Lilia Moritz; GOMES, Flávio dos Santos (org.). Dicionário da escravidão e liberdade. São Paulo: Companhia das Letras, 2018. p. 15.
¹² TST — TRIBUNAL SUPERIOR DO TRABALHO. O trabalho escravo no Brasil (1500-1888). Disponível em: https://www.tst.jus.br/en/memoriaviva/-/asset_publisher/LGQDwoJD0LV2/content/ev-jt-80-02. Acesso em: 2 jun. 2026.
¹³ Ibid.
¹⁴ IPEA; FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. Atlas da Violência 2026. Brasília: Ipea, 2026.
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