Liberdade não se defende em silêncio

Vivemos um momento delicado da história brasileira. Não é exagero dizer que há uma sensação generalizada de insegurança institucional, especialmente quando decisões judiciais parecem avançar sobre garantias básicas, restringindo liberdades e silenciando vozes sob o argumento de “defesa da democracia”. É nesse cenário que surge a proposta da caminhada organizada pelo deputado Nikolas Ferreira, que começou em Paracatu (MG), no dia 19 de janeiro de 2026, com o objetivo de protestar contra condenações e prisões de caráter político, denunciar abusos e despertar apoiadores para a gravidade do que está acontecendo no país.

Ao longo de sete dias, o deputado percorreu cerca de 240 km pela BR 040, atravessando Minas Gerais e Goiás até chegar à Praça do Cruzeiro, em Brasília (DF), no dia 25 de janeiro de 2026.

É importante ser honesto: uma caminhada, por si só, não resolve o problema. Não derruba decisões do Supremo Tribunal Federal, não revoga sentenças, não corrige, de forma imediata, os desmandos que hoje preocupam parte significativa da população. Quem acredita que uma manifestação isolada será suficiente para reequilibrar os poderes da República está sendo ingênuo. O problema é mais profundo, mais estrutural e exige enfrentamento jurídico, político e institucional. Dito isso, reduzir a iniciativa a um “ato inútil” é um erro igualmente grave.

A intenção do deputado não parece ser vender a ilusão de uma solução mágica, mas sim romper a apatia. A caminhada é um gesto simbólico, mas símbolos importam. Ao longo da história, grandes mudanças começaram quando alguém decidiu sair do roteiro tradicional, pensar fora da caixa e chamar atenção para um problema que muitos preferiam ignorar ou tratar como normal.

O Brasil vive hoje um ambiente em que parte da sociedade já se acostumou ao excesso. Prisões preventivas prolongadas, decisões monocráticas com impacto nacional, perseguição seletiva e a criminalização de opiniões políticas deixaram de causar espanto em certos círculos. Esse é talvez o maior risco: a normalização do absurdo. A caminhada, nesse sentido, funciona como um alerta. Um lembrete de que ainda existem brasileiros dispostos a dizer que algo está errado.

Sou favorável à caminhada justamente por isso. Não porque acredito que ela resolverá tudo, mas porque as vias tradicionais estão falhando. As tentativas legais, os recursos, os apelos institucionais e os debates formais não têm produzido os efeitos esperados. Quando todas essas portas parecem fechadas, a mobilização pacífica e organizada passa a ser não apenas legítima, mas necessária.

Há também um aspecto que não pode ser ignorado: o despertar político. Muita gente ainda não compreende a gravidade do momento que vivemos. Muitos só percebem o problema quando ele bate à sua porta. Atos como esse têm o poder de tirar o cidadão da zona de conforto, provocar reflexão e gerar engajamento. Podem, sim, marcar o início de uma virada de chave.

Isso não significa defender radicalismos, rupturas institucionais ou soluções fora da lei. Pelo contrário. A caminhada só faz sentido se mantiver seu caráter pacífico, ordeiro e dentro dos limites constitucionais. É justamente essa postura que expõe o contraste entre cidadãos exercendo seus direitos e autoridades que, muitas vezes, parecem dispostas a relativizá-los.

No fim das contas, a pergunta não é se a caminhada resolve tudo. Ela não resolve. A pergunta correta é: vale a pena ficar parado? Diante do cenário atual, Eu acredito que não!!

A caminhada pode não ser o fim do caminho, mas pode ser o começo de algo maior. Um marco, um sinal de que ainda existe resistência, consciência política e disposição para defender liberdades que não deveriam nunca ter sido colocadas em risco. E, em momentos históricos como este, isso já é muita coisa.



FONTE: Folha Vitória


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