Lágrimas e mais um vice: como foi o último jogo de Messi em Copas
Não foi apenas a final da Copa do Mundo de 2026 entre Espanha e Argentina. Neste domingo (19), foi a despedida de Lionel Messi, um dos maiores jogadores da história, o Pelé de uma geração, do principal evento do futebol mundial. Depois de seis Copas, aos 39 anos, o camisa 10, que estreou em 2006, na Alemanha, deu adeus ao torneio que o reconciliou com o povo argentino.
Também não foi o fim que ele sonhava. Messi esteve apagado durante os 120 minutos da decisão em Nova Jersey, nos Estados Unidos, e viu a Espanha pressionar e conseguir marcar na prorrogação para vencer por 1 a 0 e levar sua segunda taça.
Desta vez, o andar descompromissado em campo, que muitas vezes faz parecer desatenção, protagonizou a atuação, que não teve os momentos de genialidade que os torcedores se acostumaram.
Neste domingo, foram apenas 35 passes, uma finalização e nenhuma grande chance criada em 120 minutos. Ao receber a medalha de vice-campeão, assim como em 2014, o craque argentino não resistiu e foi às lágrimas no campo.
A história, porém, já o introduziu no patamar dos grandes da Copa, que sempre foi a competição que causava incômodo a Messi. Nem os mais de 900 gols, as oito Bolas de Ouro, nem as quatro Champions Leagues o colocavam no patamar de Diego Maradona, um Deus para os argentinos por ter ganho a Copa de 1986.
Até conquistar a competição em 2022, no Catar, havia desconfiança sobre se Messi igualaria ou até ultrapassaria o ídolo. Ele era chamado de “pecho frio” por seus compatriotas, o que significa um jogador apático, sem alma, o inverso de Maradona.
Em 2006, ele viu da reserva a eliminação para a Alemanha. Em 2010, nova derrota para os alemães, com Maradona como treinador. Em 2014, no Brasil, viralizou uma foto do atacante caminhando ao lado da taça, após a derrota, novamente para a Alemanha, na final. Sem ser o campeão, não podia tocá-la.
Em 2018, em um time de Jorge Sampaoli desestruturado, a Argentina caiu nas oitavas de final para a França e, mais uma vez, como após a final de 2014, Messi se questionou publicamente se valeria a pena continuar na seleção. Para sorte dos argentinos, dele e da Copa do Mundo, Messi se manteve e, em 2022, finalmente pôde tocar a taça que tanto cobiçou.
Se igualava a Maradona, não só como campeão do mundo, mas como líder de uma equipe. Dizem na Argentina que, após a morte do ídolo, em novembro de 2020, Messi se libertou da sombra e enfim mostrou que não era “pecho frio”.
Quando parecia que 2022 seria o fim apoteótico, veio a Copa de 2026 e, mais uma vez, Messi esteve em campo em um torneio que parecia destinado a Lamine Yamal, seu rival na final, a Mbappé, a Bellingham ou até a Vinícius Júnior, jovens talentos.
Mas Messi recusou o papel de figurante e foi protagonista, com oito gols, disputando até o último fim de semana a artilharia com Mbappé. Decidiu jogos, foi eleito o melhor em campo na maioria deles e fez o impensável aos quase 40 anos: jogar em alto nível em uma Copa com particularidades, como o calor intenso dos Estados Unidos e as longas viagens.
Recordista na Copa do Mundo
Messi não cansou de quebrar recordes nesta Copa do Mundo. Ele alcançou outro número impressionante neste domingo: é o primeiro a jogar 17 partidas de mata-mata em Mundiais.
Antes disso, teve o recorde de gols (21), o de vitórias (23), o de mais velho a marcar três gols (que hoje em dia é chamado de hat-trick) em um mesmo jogo, aos 38 anos e 357 dias, o de mais edições disputadas (seis, junto com Cristiano Ronaldo e Ochoa), e somam-se alguns outros, menos vistosos.
Simbólico encerrar contra a Espanha
Há um protocolo da entrada em campo dos jogadores da Argentina para o aquecimento: Messi lidera o grupo. Na entrada em campo para a partida, como capitão, ele também vai na frente, mas todos esperam ele passar.
A reverência dos colegas de time migrou para a arquibancada após o título mundial de 2022. “Messiiiiiii, Messiiiiii, Mesiiiiii”, cantam os argentinos, que fazem justamente o gesto de reverência, curvando-se com os braços à frente, que, há alguns anos, seria exclusivo de Maradona, o melhor jogador argentino de todos os tempos até Messi aparecer.
“Os companheiros o escolheram como capitão porque ele entrega tudo. Pode criar e decidir partidas. A mim não surpreende a evolução dele. Quem não o conhece pode pensar que, aos 39 anos, já não estaria nesse nível. Eu penso diferente porque sou treinador e acompanho isso de perto. Talvez com 50 anos ainda faça coisas que hoje não imaginamos”, disse o técnico da Argentina, Lionel Scaloni, antes da final.
Havia algo simbólico em enfrentar justamente a Espanha na final no MetLife Stadium. Do outro lado estava Yamal, o garoto que nasceu quando Messi já empilhava gols e títulos no Barcelona.
Há até a famosa fotografia em que um Messi de 19 anos segura um bebê durante um ensaio fotográfico. Era Yamal. Foi no Barcelona que Messi se tornou o que é, clube que o levou à Europa ainda menino, aos 13 anos, em 2000, apostando em um garoto franzino de Rosário que, quando estava despontando como futuro craque, podia escolher entre defender a Argentina ou a Espanha.
A escolha foi pelo país natal, que demorou anos para entender que Messi não tinha nada de “pecho frio”. Os aplausos dos argentinos após a partida, mesmo com muitos chorando pela derrota, mostraram isso.
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