Enquanto o FED ainda existe…


O Banco Central de Galípolo não é o único que vem sofrendo com intervenções de quem menos entende de economia. Recentemente, a tensão entre Donald Trump e Jerome Powell, chair do Federal Reserve System (FED), o banco central americano, trouxe à tona uma reflexão de um ponto que já deveria ter sido definido há muitos anos em democracias maduras como a americana: até onde vai o poder da política nas decisões técnicas? Powell veio a público denunciar que está sendo alvo de perseguição por parte do Departamento de Justiça a mando de Trump, e essas acusações surgem no contexto que o presidente americano faz pressão no FED para reduzir a taxa de juros, mesmo com o risco inflacionário já exposto.

Não se trata apenas de um embate pessoal ou de uma implicância de Trump, mas da exposição de uma fragilidade institucional. Caso intervenções políticas na economia sejam normalizadas, pilares centrais da estabilidade econômica americana podem vir a ruir.

A crítica à existência do Federal Reserve

Existe uma crítica ainda mais profunda por trás dessa discussão: o FED não deveria existir da forma que existe hoje. Ron Paul, em sua obra “End The FED” deixa claro que a existência de um banco central com o poder de expandir a base monetária como bem entende e manipular os juros representa, por si só, uma violação à economia de mercado. O FED, nessa interpretação, acaba distorcendo preços, criando ciclos artificiais e concentrando poder em poucos bancos privados. Essa crítica dialoga diretamente com a escola austríaca, onde Mises já desprezava abertamente a manipulação monetária.

Ainda assim, já que a instituição existe, não se deve ferir o conceito do Estado de Direito. Uma vez que o FED existe, a sua independência precisa ser mantida como uma condição de funcionamento. Um banco central que responde diretamente ao presidente perde a sua razão. Juros passam a ser usados como jogada eleitoral ao invés de ferramenta de estabilidade para a população. A credibilidade do banco central deve estar atrelada à sua capacidade de fazer o que é melhor para a população, não para o partido que está no poder, e deve resistir às pressões de curto prazo. Quando os mercados percebem que as decisões técnicas são, na verdade, preferências pessoais de quem pouco entende de economia, o resultado é o aumento da fragilidade institucional.

Independência do Banco Central e o caso brasileiro

O paralelo com o Brasil é inegável. Assim como Powell, Gabriel Galípolo tem sido pressionado de todos os lados para flexibilizar a taxa de juros, mesmo que não seja o momento ainda. Nos dois casos, a postura deles não é ideológica, mas institucional. O BC e o FED não existem para agradar governos ou estimular políticas específicas, e sim para proteger a moeda do país.

A interferência de Trump no FED, ou melhor, a tentativa dela, vai além da discordância sobre a taxa de juros – ela testa os limites das instituições americanas. Se a dependência do banco central é posta em questão, a confiança cai. E, sem confiança, não há política monetária eficaz e nem estabilidade econômica.



FONTE: Folha Vitória


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