Elize Matsunaga teria usado produto popular para apagar o sangue, mas perícia descobriu vestígios
Uma publicação que voltou a circular nas redes sociais resgatou um detalhe pouco lembrado do caso Elize Matsunaga: a limpeza realizada no apartamento depois da morte do empresário Marcos Matsunaga, em maio de 2012.
Segundo a postagem, Elize teria utilizado Veja Multiuso para retirar as marcas de sangue do imóvel. A informação sobre a marca não foi confirmada em documento oficial.
Os registros da investigação comprovam, entretanto, que ela limpou o apartamento e que a perícia encontrou vestígios após aplicar luminol.
O QUE ELIZE FEZ DEPOIS DA MORTE DE MARCOS?
Marcos Matsunaga foi morto dentro do apartamento onde vivia com Elize e a filha do casal, Helena Matsunaga, na Vila Leopoldina, Zona Oeste de São Paulo.
Elize confessou ter disparado contra o marido durante uma discussão. Depois, arrastou o corpo pelo imóvel, realizou o esquartejamento e colocou as partes em malas e sacos plásticos.
Os restos mortais foram abandonados em pontos de uma estrada na região de Cotia, na Grande São Paulo. Antes de deixar o apartamento, ela realizou uma limpeza para retirar as manchas e reduzir os sinais do que havia acontecido no local.
Em depoimento prestado durante a investigação, Elize relatou que limpou o banheiro onde o corpo foi cortado. Embora as superfícies não apresentassem grandes manchas visíveis quando os investigadores chegaram, o trabalho da perícia revelou vestígios que não haviam sido completamente eliminados.
O QUE A MARCA DIZ SOBRE O SUPOSTO USO DO VEJA
A publicação que motivou a nova repercussão afirma que Elize Matsunaga usou Veja para limpar o sangue deixado no apartamento após a morte do marido.
O Veja Multiuso é comercializado para a limpeza doméstica de superfícies. A fabricante, porém, não confirmou que o produto tenha sido utilizado no apartamento nem comentou sua possível ação sobre vestígios de sangue.
Procurada pelo Folha Vitória, a Reckitt, responsável pela marca Veja no Brasil, informou que não possui qualquer informação concreta que relacione seus produtos ao caso Matsunaga. Por isso, a empresa afirmou não ter condições de confirmar as suposições que circulam nas redes sociais nem identificar qual produto poderia ter sido utilizado.
A empresa acrescentou que os produtos da linha Veja são desenvolvidos para as finalidades descritas nos respectivos rótulos. O Veja X-14, citado como exemplo, é indicado para remover limo, mofo e sujeiras associadas a essas condições.
Segundo a empresa, o portfólio da marca passou por atualizações e evoluções ao longo dos anos, como ocorre regularmente na indústria.
DETALHE INVISÍVEL REVELOU O CAMINHO DO CORPO
A ausência de uma mancha visível não significa que todos os vestígios biológicos tenham desaparecido. No apartamento dos Matsunaga, os peritos utilizaram o luminol, reagente empregado para localizar possíveis resíduos de sangue.
Quando aplicado em determinadas condições, o produto provoca uma reação luminosa em contato com componentes presentes no sangue. Isso permite encontrar marcas que foram lavadas, diluídas ou que já não podem ser percebidas a olho nu.
Durante a análise do apartamento, a perícia encontrou vestígios em diferentes pontos. Os sinais ajudaram a identificar o caminho percorrido pelo corpo entre a sala, o corredor e o cômodo no qual ocorreu o esquartejamento.
A descoberta contraria a afirmação de que a polícia não encontrou sangue no imóvel. As manchas mais evidentes poderiam ter sido retiradas durante a limpeza, mas os exames periciais localizaram resíduos e contribuíram para reconstruir a dinâmica do crime.
PERÍCIA CONFIRMOU PARTE DO RELATO DE ELIZE
O laudo do Instituto de Criminalística de São Paulo foi entregue à polícia em agosto de 2012. Segundo informações publicadas na época, o documento considerou que a dinâmica encontrada no apartamento era compatível, em pontos importantes, com o relato apresentado por Elize.
Os peritos identificaram vestígios no local onde Marcos foi atingido, no percurso pelo qual o corpo teria sido levado e no cômodo onde ocorreu o esquartejamento.
Durante a reconstituição, a equipe utilizou um boneco com peso e altura semelhantes aos de Marcos para reproduzir os movimentos descritos por Elize. A análise buscava verificar se uma pessoa conseguiria realizar sozinha as ações relatadas por ela.
Imagens do circuito de segurança do condomínio também tiveram papel importante. Os registros mostraram Marcos entrando no apartamento e, mais tarde, Elize deixando o prédio pelo elevador de serviço com malas.
Quando retornou, ela já não estava com a bagagem. A combinação das imagens, dos depoimentos, dos exames realizados no corpo e dos vestígios encontrados no imóvel permitiu aos investigadores avançar na apuração.
LUMINOL CONSEGUE ENCONTRAR SANGUE APÓS A LIMPEZA?
O luminol pode indicar resíduos muito pequenos e diluídos, inclusive após tentativas de lavagem. A reação ocorre porque o composto químico entra em contato com substâncias capazes de provocar a emissão de uma luminosidade azulada.
O resultado, entretanto, não identifica sozinho se o material é sangue nem a quem ele pertence. Algumas substâncias presentes no ambiente também podem provocar reação e gerar resultados que precisam ser investigados.
Por esse motivo, a luminescência funciona como uma indicação para a coleta de amostras. O material encontrado deve passar por exames complementares para que os peritos confirmem sua natureza e, quando possível, identifiquem o perfil genético.
No caso Matsunaga, as amostras recolhidas foram submetidas a análises posteriores. Os laudos do apartamento tiveram relevância para a investigação e também provocaram discussões sobre outros materiais genéticos encontrados no imóvel.
LIMPEZA NÃO FOI SUFICIENTE PARA ESCONDER O CRIME
A investigação não dependia apenas do que estava visível dentro do apartamento. Os policiais cruzaram imagens das câmeras, registros telefônicos, deslocamentos do carro, depoimentos e resultados periciais.
Partes do corpo de Marcos foram encontradas dentro de sacos plásticos na região de Cotia. A localização e os dados reunidos durante a apuração ajudaram a relacionar Elize ao trajeto realizado para abandonar os restos mortais.
Ela confessou o crime após ser confrontada com os elementos reunidos pela polícia. A limpeza do imóvel pode ter retirado parte das marcas aparentes, mas não eliminou os vestígios encontrados nos exames nem os registros produzidos fora do apartamento.
Em dezembro de 2016, Elize Matsunaga foi condenada pela morte de Marcos e pela ocultação do cadáver. O julgamento ocorreu mais de quatro anos depois do crime e voltou a expor detalhes da investigação, incluindo a dinâmica dentro do imóvel e as medidas adotadas para esconder o que havia acontecido.
A relação do Veja com o caso permanece restrita à publicação que circula nas redes sociais. A Reckitt informou que não possui informações concretas que confirmem o uso de qualquer produto da marca. A investigação comprovou, porém, que Elize limpou o apartamento e que a perícia encontrou vestígios de sangue no imóvel.
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