Eleitor brasileiro esquece em quem votou, revela pesquisa Datafolha
Uma pesquisa Datafolha divulgada neste domingo (28) trouxe um retrato pouco confortável do eleitor brasileiro. Segundo o levantamento, 68% das pessoas não conseguem citar espontaneamente o nome de um único deputado federal em exercício, e 75% não lembram de nenhum senador. O esquecimento se repete quando o assunto é o próprio voto: 67% não recordam em quem votaram para deputado federal em 2022, e percentuais semelhantes aparecem para senador e deputado estadual. A exceção é a disputa presidencial, lembrada por 85% dos entrevistados.
O dado, à primeira vista, é só curiosidade de pesquisa. Mas ele expõe uma contradição que atravessa a sociedade brasileira: somos um país de eleitores cronicamente insatisfeitos com seus governantes, as redes sociais e conversas informais provam isso todos os dias, e, ao mesmo tempo, um país que não se informa sobre quem efetivamente ocupa as cadeiras do poder. Reclamamos do Congresso, citamos “os políticos” como categoria genérica de desconfiança, mas não sabemos nomear quem fez o quê. A indignação é abundante; o comprometimento como cidadão, escasso.
Informar-se sobre política tem custo, tempo, atenção, esforço de separar fato de propaganda e o eleitor médio tem a sensação de que seu voto isolado dificilmente mudará o resultado de uma eleição. Diante desse cálculo, é “racional” economizar a energia de acompanhar 513 deputados e 81 senadores e confiar em atalhos: a sensação geral de descontentamento, a polarização, o nome do presidente. O problema é que esse atalho cobra um preço institucional alto, como veremos mais adiante.
Politização e militância: qual a diferença?
Vale aqui uma distinção relevante para o debate público. Ser politizado não é o mesmo que ser militante. Politizar-se é desenvolver a capacidade de entender o jogo: como funciona o orçamento, o que faz um deputado de fato, quais propostas tramitam, quem vota o quê.
Entender de ideologia. É a disposição de acompanhar com algum distanciamento crítico, de quem se vota. Militância é outra coisa: é engajamento ativo em causa, partido ou candidatura, com adesão e mobilização. Pode-se ser muito militante e pouco politizado, repetindo slogans sem entender o processo por trás deles, assim como se pode ser profundamente politizado sem nunca vestir a camisa de um grupo específico.
O impacto do esquecimento na democracia
Aqui entra um ponto sério da pesquisa. A democracia depende de um mecanismo que, periodicamente, o eleitor avalia o desempenho de quem o representa e decide se renova ou não o mandato com base nisso. Esse mecanismo só funciona se houver memória, memória de promessas feitas, de votos dados na Câmara, de dados concretos de gestão.
Quando 67% das pessoas não lembram em quem votaram, e a grande maioria não sabe nomear um único parlamentar em exercício, esse elo se rompe antes mesmo de começar. Não é possível cobrar coerência de quem não se sabe quem é; não é possível confrontar promessa com resultado quando nem a promessa, nem o nome de quem a fez, foram registrados na memória.
O resultado prático é que a insatisfação se mantém abstrata, dirigida a “a política” como conceito, e nunca aterrissa em nomes, votos e mandatos específicos. Não há sanção eleitoral eficaz e o terreno fica livre para a indignação genérica e perde a informação concreta. Lembrar nomes, votos e propostas é a condição mínima para que a palavra “cobrança”, tão usada nos comentários e nas redes, tenha algum efeito real sobre quem nos representa.
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