Decisão de Evair contribuiu para desmontar chapa tucana?


No xadrez, raramente um movimento é isolado. Ao avançar uma peça, o jogador mexe em toda a dinâmica do tabuleiro, abre flancos, fecha caminhos e obriga o outro a recalcular rotas. Na política, a lógica é semelhante.

A decisão do deputado federal Evair de Melo, de deixar a federação União Progressista e se filiar ao Republicanos teve sua lógica: ele foi para um palanque onde terá liberdade para apoiar o pré-candidato ao governo que defende.

Agora ele poderá aparecer no programa eleitoral, ilustrar um “santinho” casado e pedir votos durante a campanha para Lorenzo Pazolini (Republicanos), o que seria impossível se ele continuasse no PP – que fechou apoio e estará no palanque do governador Ricardo Ferraço (MDB).

Mas, para além dos efeitos práticos em sua própria pré-candidatura e do grupo que agora integra, a mudança partidária de Evair pode ter desencadeado uma reação em outro grupo político e contribuído, ao menos em parte, para o desmonte da chapa tucana – que já estava bem frágil, mas implodiu de vez no final de semana.

Quem é Evair?

Evair é considerado um forte concorrente para a Câmara Federal. Em 2022, ele foi o terceiro deputado mais votado da bancada, alcançando 75.034 votos – ficando atrás apenas dos deputados Helder Salomão (PT), que teve 120.337 votos, e de Gilvan da Federal (PL), que recebeu 87.994 votos.

Em quatro anos, Evair aumentou de forma relevante seu capital político: em 2018, ele teve 48.412 votos e ficou em 10º lugar (último) na bancada, entre os eleitos.

A projeção para esse ano é que ele repita a votação expressiva ou até a supere, tendo em vista seu alinhamento com a oposição e o fato de ter sido citado como “o candidato ao Senado no Espírito Santo” pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Não à toa que ele estava ensaiando se lançar para o Senado.

Entre os deputados federais, ninguém é mais próximo ao ex-presidente – o maior líder da direita – que Evair e isso tem lhe rendido visibilidade e frutos. Além desse fator, o deputado tem bastante trânsito no interior, em pautas do agronegócio, onde também está seu reduto eleitoral.

Evair era um dos principais puxadores de voto da chapa federal da federação União Progressista. Uma chapa bastante competitiva – para não dizer pesada – e que, por isso, estava afastando pré-candidatos, de votação mediana para baixa, diante de uma baixa perspectiva de êxito.

Com a saída de Evair, a disputa interna da chapa se reequilibra e o interesse em fazer parte aumenta. E esse novo cenário pode ter feito parte dos cálculos do deputado estadual Bruno Resende (União), que decidiu continuar na federação e integrar a chapa federal.

Erick, Evair e Pazolini (foto: divulgação)

Entre idas e vindas

No final do ano passado, Bruno Resende foi anunciado como um futuro integrante do Podemos, partido que no Estado é comandado pelo deputado federal Gilson Daniel.

Estava tudo acertado para que Bruno se filiasse durante a janela partidária – que é quando os parlamentares podem mudar de partido sem o risco de perder o mandato por infidelidade partidária.

Um dos motivos dele querer sair do União seria a “lotação” da chapa da federação – PP e União vão montar uma chapa só para a eleição.

Ele queria encontrar uma chapa mais “confortável” para disputar a Câmara Federal. Bruno é médico, tem reduto eleitoral em Cachoeiro e em 2022 foi eleito à Assembleia com 31.897 votos.

Porém, a ida do também médico Serginho Vidigal (ex-PDT e filho do ex-prefeito da Serra Sergio Vidigal) para o Podemos jogou um balde de água fria nos planos de Bruno, que calculou que ficaria muito difícil ser eleito pelo Podemos. Além de Serginho, a chapa federal também conta com Philipe Lemos e o próprio Gilson Daniel, entre outros.

Bruno, então, começou a analisar outras possibilidades. Uma delas passou a ser o PSDB, que ainda estava em processo de atrair os nomes para montar o grupo. Até então formavam a chapa: o deputado federal Victor Linhalis e os ex-prefeitos Luiz Paulo Vellozo Lucas e Neucimar Fraga.

Porém, na quinta-feira (02), Evair anunciou sua saída da federação.

Casagrande, Bruno, Ricardo e Marcelo

Com a abertura da vaga, Bruno resolveu continuar no União, após uma reunião, na sexta-feira (03) pela manhã, com o presidente do partido, Marcelo Santos, com o governador Ricardo Ferraço (MDB) e com o ex-governador Renato Casagrande (PSB).

Questionado se a saída de Evair teria motivado, em parte, sua decisão de continuar no União, Bruno respondeu:

“Minha definição foi baseada na decisão de apoio à base de Ferraço e Casagrande. Após muita reflexão, resolvi ficar no projeto que eu acredito para o Espírito Santo. Não foi chapa. Vou disputar com humildade. Mas acredito no meu grupo e vamos para a disputa com foco na vitória”.

O xeque-mate e o desmonte

Com a definição de Bruno de não ir para o PSDB e também com a migração da vice-prefeita de São Mateus, Professora Raquel, do ninho para o União – a um dia do fim do prazo da janela partidária –, o clima na chapa tucana era de pura aflição, especialmente para Victor Linhalis, que é pré-candidato à reeleição.

Sem perspectiva de mudança no cenário, Victor – braço direito do prefeito Arnaldinho e o primeiro a se comprometer a disputar a Câmara Federal pelo PSDB – deixou o partido e se filiou ao PSB, com quem já vinha conversando ao longo da semana.

O deputado federal era o puxador de votos da chapa tucana. Em 2022, Victor, filiado ao Podemos, somou 53.483 votos e foi o sexto deputado mais bem votado da bancada capixaba.

Analistas políticos calculam que serão necessários cerca de 200 mil votos na chapa para conseguir eleger um deputado neste ano. Perder um quarto desse potencial, a um dia do prazo final de filiações, gerou uma turbulência no ninho tucano.

E, para piorar, na esteira de Victor, Neucimar Fraga também deixou a legenda. Ele até tentou continuar no PSDB e concorrer para estadual – que era o seu projeto inicial. Porém, a chapa para a Assembleia já estava fechada. Neucimar, então, migrou para o PL.

O remanescente

Conforme a coluna noticiou mais cedo, o ex-prefeito Luiz Paulo vai continuar filiado ao PSDB, porém, ainda não foi decidido o que ele disputará.

A definição deve passar pela cúpula nacional, que, nos bastidores, não estaria nada satisfeita com o desfecho da janela partidária para os tucanos capixabas.

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FONTE: Folha Vitória


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