Conflitos entre vizinhos terminam em três mortes e levantam debate sobre armas de PMs no ES


Foto: Reprodução/TV Vitória

Dois conflitos entre vizinhos no Espírito Santo terminaram em três mortes e envolveram policiais militares armados em situações distintas. Em um dos casos, ocorrido em Vitória, o agente estava de folga quando matou um músico após uma discussão por causa de barulho. No outro, em Cariacica, um cabo da Polícia Militar matou duas mulheres durante um desentendimento pessoal.

Os episódios ocorreram com três anos de diferença e estão entre os registros envolvendo agentes de segurança identificados em um levantamento feito pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (SESP) a pedido da reportagem.

Entre janeiro de 2018 e agosto de 2026, foram contabilizadas 179 ocorrências no Espírito Santo. Do total, 114 registros são de lesão corporal, 57 foram classificados como vias de fato e oito envolveram disparos de arma de fogo. Pelo menos 82 ocorrências estão expressamente relacionadas a integrantes da Polícia Militar.

Músico morreu após reclamar de barulho

Em Jardim Camburi, em Vitória, o músico Guilherme Rocha, de 30 anos, morreu após uma discussão na madrugada de 17 de abril de 2023.

Segundo a investigação, Guilherme pediu que um grupo diminuísse o volume do som no condomínio onde morava. O desentendimento aumentou e envolveu o então policial militar Lucas Torresani, que estava de folga. O policial se identificou como PM e atirou contra o músico.

Lucas Torrezani (esquerda) matou o músico Guilherme Rocha (direita)
Lucas Torrezani (esquerda) foi preso preventivamente por matar o músico Guilherme Rocha (direita). Foto: Montagem/Folha Vitória

A Polícia Civil também apontou que Torresani teria tentado combinar versões com amigos para sustentar a alegação de legítima defesa.

A investigação foi concluída em 2023. Em 20 de maio de 2026, o ex-policial militar foi condenado pelo Tribunal do Júri a 30 anos de prisão por homicídio qualificado e a mais dois anos por abuso de autoridade. A pena total foi de 32 anos.

Ele também foi condenado a pagar R$ 500 mil à família de Guilherme.

Eu fui policial também, aliás, sou um policial civil, fui médico legista e lidei com muita violência, mas não tão grave assim. E me parece, pelos fatos, que havia um propósito de que o Guilherme fosse morto por esse policial.

Glício Soares, pai da vítima

Discussão terminou com duas mulheres mortas

Três anos depois, outro conflito envolvendo um policial militar terminou em duas mortes, desta vez em Cariacica. Em 8 de abril de 2026, o cabo Luiz Gustavo Xavier do Vale foi chamado para intervir em um desentendimento pessoal que envolvia a ex-esposa dele e as vítimas.

Câmeras de segurança registraram os disparos. Daniele Toneto Rocha morreu no local. Francisca Chaguiana Dias Viana foi socorrida e levada para um hospital, mas não resistiu aos ferimentos.

O cabo foi preso, e o caso foi registrado como duplo homicídio.

Francisca Chaguiana Dias Viana e Daniele Toneto Rocha foram mortas por um PM em Cariacica
Foto: Reprodução de vídeo e acervo pessoal

A irmã de Francisca afirmou que a vítima tinha medo de que o policial fosse envolvido nas brigas que mantinha com uma vizinha. A familiar também afirmou acreditar que o cabo foi ao local com a intenção de matar.

Além dele ir para matar, e teve outros seis policiais que ficaram olhando, não fizeram nada, não fizeram nada, porque eles poderiam ter evitado.

Irmã de Francisca

Seis policiais foram afastados após as mortes

Seis policiais militares que presenciaram as mortes em Cariacica foram afastados e tiveram os portes de armas suspensos após o episódio. Posteriormente, a Justiça Militar autorizou que eles retomassem atividades internas na corporação, mas sem atuação operacional nas ruas.

Os seis continuam sendo investigados pela suspeita de não terem agido para impedir as mortes.

Segundo o major Rubens, da Corregedoria da Polícia Militar, a eventual responsabilização dos agentes depende de uma apuração formal, com direito ao contraditório e à ampla defesa. Também deve ser verificado se houve alguma violação ao Código de Ética da corporação.

Porte de arma não autoriza uso indiscriminado

De acordo com o major Rubens, o Estatuto do Desarmamento permite que policiais militares tenham porte de arma em todo o território nacional.

Ele ressaltou, porém, que o porte significa autorização para transportar e portar a arma, mas não representa uma autorização automática para apontá-la ou efetuar disparos.

*Com informações da repórter Nathália Munhão, da TV Vitória/Record.



FONTE: Folha Vitória


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