como o crime organizado se infiltra nos bairros


As organizações criminosas têm ido muito além do tráfico de drogas para se infiltrar no cotidiano das comunidades. Segundo o capitão veterano do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE), Rodrigo Pimentel, internet clandestina, venda de botijão de gás e outros produtos e até festas infantis entram na lista de mecanismos usados para consolidar o domínio territorial e financeiro.

O alerta foi feito durante sua passagem pelo evento “Brasil Sob Ameaça – Encontro Nacional de Segurança e Combate ao Crime Organizado”, que acontece em Vitória nesta segunda (27) e terça-feira (28). De acordo com ele, o controle desses serviços transforma o morador comum em financiador direto das facções, mesmo aquele que nunca teve qualquer relação com drogas.

É assim que as organizações criminosas exercem domínio territorial: sinal de internet, botijão de gás, pão, cigarro do Paraguai, gelo, transporte alternativo. O morador acaba financiando a facção sem perceber

Rodrigo Pimentel, capitão veterano do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE)

Botijão de gás mais caro financia compra de fuzis

Capitão do Bope fala sobre combate ao crime organizado em evento no ES. Imagem: Aline Gomes/Folha Vitória

Um dos exemplos mais emblemáticos citados por Pimentel foi o preço do gás de cozinha em áreas dominadas pelo Comando Vermelho, no Rio de Janeiro.

Segundo ele, enquanto no Brasil o botijão custa entre R$ 90 e R$ 108, dependendo do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e da logística de cada estado, em regiões sob controle da facção o valor chega a custar entre R$ 150 e R$ 175.

“Uma família de quatro pessoas, que consome um botijão a cada 21 dias, vai deixar na mão do Comando Vermelho cerca de R$ 700 por ano. Ainda que essa família não fume maconha e não cheire cocaína, ela está contribuindo para a facção.”

Para ele, essa prática representa uma das maiores violências contra o morador da periferia. “É a maior covardia com o trabalhador da periferia. Obrigar essa pessoa a comprar um botijão hiperinflacionado para abastecer a compra de fuzis.”

Facções já dominam internet em 14 estados

Outro setor que vem sendo tomado pelo crime organizado é o fornecimento clandestino de internet, conhecido popularmente como “gatonet”.

Segundo Pimentel, o Comando Vermelho já opera inclusive com sua própria estrutura de provedor ilegal, chamada por ele de “CVNet”, com mensalidades em torno de R$ 109. Hoje, de acordo com ele, o domínio da internet pelas facções já ocorre em pelo menos 14 estados brasileiros.

“O fato de isso ainda não acontecer no Espírito Santo é extremamente positivo. Significa que a polícia está atenta a esse problema.”

Ele destacou que impedir essa infiltração é fundamental para evitar que o estado repita a realidade observada em regiões do Rio de Janeiro.

Quando o tráfico vira Estado paralelo

Pimentel também chamou atenção para o chamado “estado híbrido”, quando a facção passa a assumir funções que deveriam ser do poder público. Ele citou como exemplo a construção de uma ponte no Complexo de Israel, no Rio de Janeiro, uma área dominada pelo Terceiro Comando.

Segundo ele, a obra era uma demanda antiga da população, ignorada pelo poder público. O grupo criminoso construiu a ponte, divulgou nas redes sociais e passou a reforçar sua imagem de poder dentro da comunidade.

Rodrigo Pimentel, capitão veterano do Bope. Foto: Reprodução/TV Vitória

“O traficante fez e publicou: ‘Prefeito, você não fez a ponte? Eu fiz’. Esse é o estado híbrido que vivemos no Brasil hoje.”

Entretanto, ele ressalta que a estrutura não servia apenas para ajudar moradores, mas também facilitava a fuga de criminosos durante operações policiais.

Presentes, festas e a disputa pela lealdade

As festas infantis e comemorações comunitárias também não escapam dessa influência, apontou o capitão.

Em comunidades dominadas, segundo Pimentel, traficantes distribuem brinquedos caros em datas comemorativas e promovem grandes festas como forma de conquistar legitimidade social.

De acordo com ele, essa estratégia fortalece o que chama de “narcocultura” e cria uma geração que passa a enxergar o criminoso como benfeitor.

Em uma festa de Dia das Crianças, foram distribuídos PlayStations e bicicletas novas para 2.500 crianças. Para esses meninos de 10 ou 12 anos, a facção foi quem deu o presente que o pai não deu.

Rodrigo Pimentel, capitão veterano do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE)

Encontro em Vitória debate segurança e combate ao crime

Primeiro dia do evento “Brasil Sob Ameaça – Encontro Nacional de Segurança e Combate ao Crime Organizado”. Foto: Aline Gomes/Folha Vitória

O “Brasil Sob Ameaça – Encontro Nacional de Segurança e Combate ao Crime Organizado” reúne especialistas em segurança pública de todo o País em Vitória nesta segunda (27) e terça-feira (28).

O evento acontece no Espaço Patrick Ribeiro, no Aeroporto de Vitória e interessados podem e inscrever por meio do link.

Além de Rodrigo Pimentel, o primeiro dia do evento contou com a presença de nomes como o governador do Estado, Ricardo Ferraço, e o juiz de Direito do Tribunal de Justiça do Estado de Espírito Santo, Carlos Eduardo Ribeiro Lemos.

Confira a programação da terça-feira (28)

8h – Credenciamento

9h – Painel Duplo
Insurgência Criminal: conceito e relevância para a justiça e a segurança pública, com Deltan Dallagnol e Alessandro Visacro, coronel do Exército Brasileiro
Presidente de Mesa: Ricardo Goretti (FDV)

10h – Palestra
Como implantar a experiência americana contra atiradores ativos em escolas brasileiras, com major Eliandro Claudino, comandante da CIPE, Cia. Independente de Policiamento Escolar PMES
Presidente da Mesa: Luis Eduardo Fachetti de Oliveira

10h45 – Intervalo

11h – Painel Duplo
O papel do Poder Judiciário no combate ao crime organizado e à lavagem de dinheiro, com Ivana David (TJSP) e Rodrigo Casimiro Reis, defensor público – MA
Presidente da Mesa: Janete Vargas (TJES)

12h – Almoço

14h – Palestra
Segurança Pública no Pós-Eleições: Projeções, Desafios e Perspectivas para o Futuro, com Guilherme Derrite, deputado federal/SP
Debatedor: Carlos Eduardo Ribeiro Lemos (TJES/FDV)
Presidente de Mesa: Érica Neves (OAB/ES)

15h – Painel Triplo
Como o sistema prisional brasileiro alimenta redes nacionais de facções e quais saídas são possíveis, com André Garcia, secretário nacional de Justiça, Rafael Pacheco (PF) e Leonardo Damasceno, secretário de Estado da Segurança Pública/ES)
Presidente da Mesa: Fernando Zardini Antonio (TJES)

16h – Intervalo

16h15 – Painel Triplo A infiltração das facções no mercado e no setor privado, com Edson Vismona (FNCP), Fernando Saliba, diretor-presidente ES em Ação e Rafael Furlanetti, diretor-institucional XP) Presidente da Mesa: Carlos Eduardo Ribeiro Lemos (TJES/FDV)

17h15 – Mesa Redonda
O Brasil que reage ao crime organizado, com Ricardo Ferraço, governador do Espírito Santo, e Romeu Zema, ex-governador de Minas Gerais
Presidente da Mesa: Antonio Abikair (FDV)

18h45 – Encerramento Geral com a leitura da Carta de Vitória



FONTE: Folha Vitória


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