Comerciantes em listas de boicote a “petistas” no ES relatam medo e desabafam
Após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ser reeleito no segundo turno das Eleições de 2026, uma série de listas de boicote expondo estabelecimentos “de esquerda” foi publicada nas redes sociais com o objetivo de prejudicar comerciantes e autônomos. O Folha Vitória teve acesso a listas em pelo menos cinco cidades do Espírito Santo que trazem este tipo de conteúdo.
Os casos foram relatados em Vitória, Colatina, Alegre, Santa Teresa e Cachoeiro de Itapemirim. Em alguns lugares, como, por exemplo, Cachoeiro de Itapemirim, não foram apenas comerciantes e prestadores de serviços que foram expostos, mas também espaços religiosos, como paróquias e igrejas.

A prática não é nova. Em 2022, quando Jair Bolsonaro perdeu a eleição, listas parecidas com essas também circularam com o mesmo intuito: fazer com que comerciantes “petistas” fossem prejudicados.
O boicote retornou neste ano no Estado e também em outros locais, como Minas Gerais, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, após a indignação de alguns eleitores com a derrota de Flávio Bolsonaro (PL).
Os comerciantes que estão sendo atacados, ouvidos pela reportagem, relataram medo, indignação e revolta.
Uma maquiadora relatou que esta é a segunda vez que seu nome aparece neste tipo de lista. A primeira vez foi em 2022, quando ela estava recém-casada e tinha acabado de dar à luz sua filha, porém, neste ano, o medo de perder clientela e sofrer retaliações a assustou ainda mais.
Me pesou bastante, me tremeu as pernas, porque ainda estou passando por um divórcio difícil. Tenho uma filha de 4 anos que mora comigo e depende de mim. Esse tipo de boicote me deu uma estremecida. Em compensação, também me deu uma enfurecida, porque as pessoas não pensam o que estão boicotando. Porque junto de mim tem uma criança de quatro anos.
Maquiadora.
Ela contou que, justamente por pensar na sua sobrevivência e de sua filha, não se manifestou abertamente nas redes sociais neste ano, por isso, acredita que as pessoas só descobriram seu posicionamento político com conversas ou curtidas.
“Em 2026, eu estive um pouco mais ativa nas redes sociais, participando de comentários e compartilhamentos. Eu não faço nenhum tipo de vídeo explícito ou algo aberto. É apenas por convicções políticas que você conversa com um, com outro, e as pessoas vão espalhando. Eu poderia ter criado vários conteúdos a respeito de política, porque tenho uma influência. Eu não trabalhei com isso, não mexi com isso, porque o foco deste ano foi a minha sobrevivência”, desabafou.
Um proprietário de um comércio também sofreu com as consequências das listas de boicote, especialmente em 2022, quando seu estabelecimento tinha apenas um ano de existência.
“Naquela ocasião, clientes nos contaram que outras pessoas estavam recomendando que deixassem de frequentar nossa casa. Naquele período, percebemos uma queda no movimento e ficamos muito preocupados”, contou.
O caso voltou a acontecer neste ano e deixou todos que se dedicam ao estabelecimento em alerta para uma possível queda nas vendas.
O sentimento é de tristeza, indignação e preocupação. Por trás do estabelecimento estão minha família, nossa equipe e as famílias de quem trabalha conosco. Existe muita luta e dedicação para manter tudo isso de pé.
Proprietário de um comércio.
Violência, ódio e medo

A reportagem também ouviu uma prestadora de serviço, que sofreu com retaliação na internet, discurso de ódio e difamação. Ela relata se sentir impotente e com medo.
Acredito que pode sim prejudicar o meu serviço, além de não me sentir segura, pois são pessoas violentas. Muitos andam armados. Me sinto exposta.
Prestadora de serviços.
Um outro proprietário de uma loja de roupas, que sofreu a mesma situação em 2022, afirmou que este tipo de discurso vem de um grupo pequeno de pessoas.
“Quem organiza isso é uma minoria muito odiosa e barulhenta. Eu conheço muitas pessoas de direita que são boas, assim como eu já fui também, que me mandaram várias mensagens se solidarizando. Nós percebemos que se juntarmos todo mundo que é de esquerda, de centro e de direita e deixar de consumir de quem está organizando essa lista, eles que vão fechar”, disse.
Tanto a maquiadora, quanto o dono de comércio relataram que o mesmo aconteceu com ela. Após falar sobre a questão em suas redes sociais, vários clientes mandaram solidariedade e estão, inclusive, expondo essa lista para que cause o efeito contrário.
Segundo o proprietário da loja de roupas, esse tipo de conteúdo mostra até onde o ódio pode chegar e como ele pode ser disseminado sem limites nas redes sociais.
As pessoas expressam aquilo que têm de pior dentro delas, de forma legal, e principalmente usando a internet, porque a internet é um meio de comunicação gratuito e democrático, que não é fiscalizado, utilizando-a para cometer esses crimes.
Proprietário de uma loja de roupas.
Advogado alerta para crime eleitoral
O advogado e mestre em Direito Helio Maldonado explicou que a elaboração ou divulgação de uma lista incentivando o boicote a estabelecimentos por suas preferências políticas não configura, automaticamente, crime eleitoral.
Segundo ele, a liberdade de expressão também protege manifestações de discordância política e iniciativas pacíficas de boicote. Porém, a prática pode ser crime se ultrapassar a manifestação de opinião e envolver intimidação, ameaças, perseguição ou constrangimento ilegal.
No âmbito eleitoral, o artigo 301 do Código Eleitoral pune o uso de violência ou grave ameaça para obrigar alguém a votar ou deixar de votar em determinado candidato ou partido, com pena de reclusão de até quatro anos. Também podem ocorrer crimes eleitorais contra a honra, previstos nos artigos 324 a 326 do Código Eleitoral, quando a divulgação contiver calúnia, difamação ou injúria no contexto da propaganda eleitoral ou com essa finalidade, inclusive contra pessoas que não sejam candidatas.
Helio Maldonado, advogado
Ele também explicou que, caso a lista se enquandre em crime eleitoral, tanto quem cria, como quem divulga pode responder criminalmente.
“Quem compartilha conscientemente acusações criminosas falsas, reproduz ameaças ou participa de uma campanha ilícita de perseguição também pode responder pelos próprios atos. Entretanto, o mero compartilhamento de uma lista não gera responsabilidade criminal automática. É necessário avaliar o conteúdo, a participação e o elemento subjetivo exigido pelo delito”, explica.
Ainda de acordo com o advogado, as pessoas que cometem este tipo de crime podem ser responsabilizadas:
- na esfera criminal: em que podem ser caracterizados crimes de ameaça, constrangimento ilegal, perseguição reiterada (stalking) ou crimes contra a honra;
- na esfera civil: em que os responsáveis são condenados a indenizar as vítimas por danos morais e materiais;
- na esfera eleitoral: se a campanha de boicote estiver vinculada à propaganda eleitoral irregular.
Segundo o advogado, todas as esferas preveem multa ou reclusão.
Denúncias e boletins de ocorrência

Segundo Maldonado, os comerciantes podem registrar boletim de ocorrência e procurar os órgãos competentes.
Antes de tudo, é importante reunir e preservar as provas, como capturas de tela, links, datas, mensagens, identificação de perfis, eventuais ameaças e documentos que demonstrem prejuízos comerciais.
“Se houver indícios de ameaça, perseguição ou crimes contra a honra, é possível procurar a autoridade policial. Quando houver indícios de crime eleitoral, o caso também poderá ser comunicado ao Ministério Público Eleitoral ou à autoridade judiciária eleitoral competente. Paralelamente, o comerciante pode buscar a Justiça comum para solicitar a retirada de conteúdos ilícitos, impedir novas ofensas e requerer indenização, quando presentes os requisitos legais.”
Todos os proprietários ouvidos pela reportagem afirmaram que já procuraram a Justiça ou algum tipo de assessoria jurídica para saber como proceder após os ataques.
De acordo com a maquiadora, várias pessoas estão se organizando para entrar com processos e recorrer ao que estão sofrendo. O dono da loja de roupas disse que, apesar de não ter medo e não se importar com seu nome imposto, está tentando auxiliar as pessoas com medo e que precisam de assistência.
Estamos juntando provas para encaminhar ao Ministério Público, porque essas pessoas estão cometendo crimes. Eles estão cometendo um crime, eles não aceitam o processo democrático. Tem muita gente humilde ali, tem muita gente que às vezes está passando por problemas financeiros, tem muita gente que precisa pagar funcionários, sustentar família. Isso não pode ser normalizado, não pode ser banalizado.
Proprietário de uma loja de roupas.
O dono do comércio também fez um apelo: que as pessoas não repassem a lista.
“Queremos continuar trabalhando e recebendo todos com nossa comida, acolhimento e respeito.”
Em outros casos, as vítimas relatam que os ataques só os fazem ter mais certeza da importância do posicionamento político e de se manifestar publicamente.
“Em 2030, eu vou fazer três vezes pior (sobre se manifestar politicamente). Não tenho mais medo, porque eu me acovardei por ter uma criança, por estar recomeçando”, destacou a maquiadora.
Descubra mais sobre Pauta Capixaba
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

