Capixabas transplantados conquistam medalhas em Jogos Pan-Americanos e celebram segunda chance de vida


(Fotos: Reprodução/Instagram/@lfbrumana/@richard_brandao01)

A vida depois de um transplante pode reservar conquistas que, em algum momento, pareciam impossíveis. Para dois capixabas, a oportunidade de recomeçar ganhou um significado especial dentro das piscinas e nas pistas de atletismo.

Os atletas Richard Brandão e Luiz Fernando Brumana representaram o Espírito Santo nos primeiros Jogos Pan-Americanos de Transplantados, realizados no Uruguai, e voltaram para casa com resultados expressivos. Eles fazem parte de uma comunidade que encontrou no esporte uma maneira de celebrar a vida após receber um órgão.

Richard conquistou o primeiro lugar em quatro das cinco provas que disputou. Já Luiz, professor e jornalista de Marataízes, no Litoral Sul do Estado, venceu todas as seis provas de natação em que competiu, garantindo seis medalhas de ouro.

Mais do que os resultados, as histórias dos capixabas mostram como o transplante pode representar o início de uma nova etapa, com a retomada de sonhos, atividades e projetos que precisaram ser interrompidos.

Do diagnóstico inesperado à realização de um sonho

Apesar das dificuldades, Richard superou e se renovou (Fotos: Reprodução/Instagram/@richard_brandao01)

Richard Brandão já havia vivido uma longa jornada até chegar à competição internacional. Morador de Guarapari, ele descobriu que precisava de um transplante renal há cerca de dez anos, depois de passar mal enquanto jogava futebol.

Na ocasião, sua pressão arterial subiu e ele perdeu a visão. Levado ao hospital, recebeu a notícia de que os dois rins estavam parando de funcionar. Na época, estava no último ano do ensino médio e praticava diferentes esportes. A descoberta mudou completamente sua rotina.

Durante oito anos, Richard enfrentou sessões de hemodiálise três vezes por semana, com duração de aproximadamente quatro horas cada. No início do tratamento, chegou a se isolar e teve dificuldades para aceitar as limitações impostas pela doença.

A corrida apareceu como uma maneira de reagir à situação. Em março de 2024, ele recebeu um transplante renal no Hospital Meridional Cariacica e, aos poucos, retomou a relação com o esporte.

A evolução chamou a atenção da Liga de Atletas Transplantados do Brasil, que o convidou para integrar a delegação brasileira nos Jogos Pan-Americanos. O que antes parecia distante virou realidade: Richard passou a representar o país em uma competição internacional e conquistou o primeiro lugar em quatro das cinco provas disputadas.

Seis ouros e uma história de gratidão

A doação do irmão trouxe esperança para Luiz (Fotos: Reprodução/Instagram/@lfbrumana)

Outra história de superação veio do Litoral Sul capixaba. O professor e jornalista Luiz Fernando Brumana, de Marataízes, também integrou a delegação brasileira e teve um desempenho expressivo na competição.

Transplantado renal, Luiz recebeu o rim do irmão, João Vitor, em 2017. A doação foi possível porque os dois apresentaram compatibilidade total. Antes da cirurgia, o professor precisou passar por hemodiálise durante um ano e dez meses, depois de descobrir que sofria de insuficiência renal.

Além do irmão, outros familiares, entre eles irmãos e primos, chegaram a se disponibilizar para a doação. A compatibilidade de João Vitor tornou possível o transplante e abriu caminho para uma nova fase na vida de Luiz.

Anos depois, o capixaba voltou às competições em grande estilo. Em Punta del Este, no Uruguai, conquistou seis medalhas de ouro, vencendo todas as provas de natação que disputou: 50, 100 e 200 metros livre; 50 e 100 metros peito; e 50 metros costas.

Hoje, Luiz também integra a Liga de Atletas Transplantados do Brasil e se dedica ao esporte. Mas, em um relato publicado nas redes sociais após a competição, deixou claro que as medalhas não foram sua principal conquista.

Ao relembrar os dias no Uruguai, destacou os encontros com atletas de diferentes países, as amizades construídas, o apoio entre os integrantes das delegações e a emoção compartilhada durante os Jogos. Para ele, a experiência foi muito além dos pódios.

Esporte para celebrar a vida
Os jogos trazem propósito aos atletas com lindas histórias de superação (Fotos: Reprodução/Instagram/@lfbrumana)

Os Jogos Pan-Americanos de Transplantados também têm um propósito que ultrapassa a disputa esportiva. A competição reúne pessoas que passaram por transplantes e busca dar visibilidade à importância da doação de órgãos, mostrando que receber um órgão pode significar a possibilidade de retomar projetos e viver novas experiências.

A prática esportiva, entretanto, exige acompanhamento e cuidados específicos. Como explicou o nefrologista Vinicius Peterle, da Rede Meridional, em entrevista à Folha Vitória na reportagem sobre a preparação de Richard, a atividade física pode trazer benefícios importantes para pessoas transplantadas, inclusive contribuindo para a sobrevida do paciente e do órgão recebido.

O médico ressalta, porém, que a retomada dos exercícios precisa respeitar o período de recuperação e as condições individuais de cada paciente. Para quem pretende competir, o acompanhamento médico e a orientação profissional são fundamentais.

As histórias de Richard e Luiz ajudam a mostrar que o transplante não precisa representar o fim de uma trajetória esportiva. Pelo contrário: para os dois capixabas, foi o começo de uma nova história, agora marcada por medalhas, amizades e pela oportunidade de inspirar outras pessoas.



FONTE: Folha Vitória


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