As poucas propostas dos candidatos ao governo para a população que mais cresce no ES


Imagem: Freepik

A campanha eleitoral avança para a reta final após muitas promessas, embates e anúncios de grandes obras em áreas que tradicionalmente costumam monopolizar o debate público.

Segurança pública, por exemplo, dominou o debate entre os principais candidatos ao governo do Estado na Rede Vitória. Aumentar ou universalizar a escola de tempo integral é uma proposta comum entre eles. E os três – Helder Salomão (PT), Lorenzo Pazolini (Republicanos) e Ricardo Ferraço (MDB) – concordam que é preciso regionalizar os serviços especializados de saúde e reduzir as filas de espera dos pacientes.

Porém, há um tema que, embora seja urgente, ficou de fora das entrevistas, debates e programas eleitorais, além de receber pouca atenção nos planos de governo dos candidatos.

Trata-se da transformação demográfica em curso. A virada na pirâmide etária – impulsionada pela queda na taxa de natalidade e pelo aumento da longevidade – fez dos idosos o segmento populacional que mais cresce no País e, em ritmo ainda mais acelerado, no Espírito Santo.

A terceira idade em números

Segundo dados do Censo 2022 do IBGE, em 12 anos (de 2010 a 2022), a população idosa no Estado (acima de 60 anos) cresceu 73,1%, saltando de 364.745 para 631.398 pessoas. Um aumento que foi superior ao do Brasil, que registrou crescimento de 55,97% no mesmo período.

Em 2022, os idosos representavam 16,47% da população do Espírito Santo e o índice de envelhecimento no Estado foi de 58,1 – o que significa que, para cada 100 jovens de 0 a 14 anos, existem 58,1 pessoas com 60 anos ou mais. A taxa também supera a brasileira, de 55,24%.

Entre os municípios capixabas, os que apresentaram maiores percentuais de idosos foram: Itaguaçu (23,65%), seguido por São José do Calçado (22,58%) e Itarana (22,54%).

Na Grande Vitória, a Capital tem a maior população idosa: 20,07%. Serra, apesar de ser o município mais populoso, é o que tem um dos menores percentuais de idosos da Região Metropolitana e também do Estado: 12,77%.

O Espírito Santo também ostenta a segunda maior expectativa de vida ao nascer do País – 79,8 anos em 2022 (em 2000 era 70,37 anos). O Estado fica atrás apenas de Santa Catarina (79,9).

E o que esses dados exigem? Políticas públicas específicas voltadas para saúde, segurança, assistência social, mobilidade urbana, habitação e previdência, entre outras. Porque já se tem visto uma sobrecarga no SUS, uma dependência crescente de rede de apoio – que muitas vezes a família não pode ofertar –, golpes e violências que miram especificamente os idosos e o problema fiscal de se manter um número cada vez maior de aposentados e pensionistas.

Embora a assistência direta ao cidadão ocorra no dia a dia dos municípios e as grandes diretrizes venham da União, o governo do Estado desempenha um papel estratégico e insubstituível. Cabe ao Poder Executivo Estadual, entre outras coisas, cofinanciar serviços essenciais, regionalizar a saúde especializada e liderar políticas integradas de segurança e acessibilidade.

As propostas

Apesar da urgência dos números, as propostas dos três principais candidatos ao governo voltados para a população idosa são tímidas. Nos planos de governo Breno Barcelos (Missão) e Rafael Demuner (UP), não há menção sobre políticas específicas voltadas para esse público.

O principal projeto de Pazolini sobre o tema é a criação do programa “Vila do Idoso”, definido em seu plano de governo, como “uma forma de garantir que o idoso mantenha sua independência e privacidade, mas em um ambiente protegido, adaptado e com suporte especializado”.

Não há, contudo, detalhes essenciais: o plano não explica como e onde o programa funcionará, quantos idosos serão atendidos e qual valor do orçamento será destinado para sustentar o projeto.

O plano do ex-prefeito também cita a expansão do cuidado domiciliar, a teleassistência, a adaptação de moradias, apoio a cuidadores e uma força-tarefa contra crimes cibernéticos “que vitimizam, sobretudo, a população vulnerável, como idosos e adolescentes”.

O plano de governo de Helder, no eixo sobre combate às desigualdades sociais, prevê “fortalecer a atenção domiciliar articulada com o programa de atenção ao idoso”.

A plataforma fala em “promover o envelhecimento ativo e saudável, com atendimento integral pelo SUS, acesso prioritário a medicamentos, vacinação e reabilitação, e programas de longevidade”.

Também cita a criação do programa “Viver Bem” para “prevenir e enfrentar a violência, o abandono e a negligência contra idosos” e promete ampliar oportunidades no mercado de trabalho para a terceira idade.

Entretanto, o documento não especifica quais medidas práticas serão adotadas para ir além do que o Estado já executa hoje.

Ricardo Ferraço até apresenta um conjunto de propostas mais detalhado. O detalhamento, porém, suscita um questionamento inevitável: por que tais ações não foram implementadas antes, uma vez que o candidato é o atual governador e representa o grupo político que comanda o Estado por 12 anos? Afinal, o processo de envelhecimento da população não é um fenômeno recente.

O próprio Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN), órgão do governo estadual, lançou, em março de 2024, o “Panorama do Idoso no Espírito Santo”, jogando luz sobre o tema e alertando o poder público:

Com o aumento do número de idosos nas nossas cidades, torna-se necessário rever o planejamento e a gestão pública, assim como também promover políticas públicas específicas para essa faixa etária (60 ou mais), que cresce no Brasil e no Espírito Santo. O impacto dessa ‘nova ordem’ demográfica é grande, e a demanda por adequações na formulação de políticas públicas é considerável”.

Trecho do Panorama do Idoso, do IJSN

Entre os compromissos de Ricardo estão a criação da “Política Estadual de Cuidados” para atender, além das pessoas vulneráveis, os cuidadores profissionais e familiares com “suporte psicológico, orientação jurídica, formação permanente e estratégias de prevenção da sobrecarga física, emocional e financeira”.

Outra proposta é cofinanciar, junto aos municípios, a implantação dos Centros-Dia – equipamentos públicos onde o idoso passa o dia (como se fosse uma creche), contando com toda a rede de cuidados necessários, além de atividades físicas e cognitivas, oficinas e convivência.

Atualmente, na Grande Vitória, há apenas um Centro-Dia público em funcionamento, que fica na Serra e é mantido pela prefeitura – instituições de longa permanência também oferecem o serviço, mas de forma particular.

Outro programa previsto em parceria com as prefeituras é a criação do “Cidade Amiga da Pessoa Idosa”, mirando, principalmente as ações de mobilidade e acessibilidade.

O estudo do IJSN reforça a urgência dessas intervenções ao destacar gargalos cotidianos, como as calçadas esburacadas e a velocidade dos semáforos: enquanto um idoso caminha a uma média de 0,4 m/s, o tempo de travessia das cidades é calculado para quem anda a 1,2 m/s.

O candidato também promete implantar o “Programa Estadual de Inclusão e Letramento Digital da Pessoa Idosa” – para ampliar o acesso a aplicativos públicos, telemedicina e evitar golpes – e o “Programa Bem Viver”, com ações de educação financeira e de envelhecimento ativo. Mas, como nos projetos dos concorrentes, também não há números e nem valores detalhados nas propostas.

Dificuldade na mobilidade exige cuidados e intervenções urbanas (Foto: Reprodução/Freepik)

Pauta urgente

A discrepância entre o ritmo dos semáforos e a passada dos idosos é a metáfora perfeita para a relação entre o Estado e a sua população que mais cresce. Enquanto a longevidade avança, o planejamento das políticas públicas parece retido no sinal vermelho.

Garantir dignidade, mobilidade, saúde e segurança para mais de 630 mil pessoas não é uma pauta secundária, e tampouco pode ficar para amanhã. Trata-se de um dos maiores desafios da atualidade e que precisa estar no radar do próximo governante.

E ainda que essa atenção não venha por meio de um compromisso e respeito a quem construiu o Espírito Santo de ontem, que venha então por pura estratégia eleitoral: analistas políticos reforçam que o eleitorado idoso tem peso para definir disputas acirradas, como a que se desenha para este ano.

Embora acima dos 70 anos o voto seja facultativo, candidaturas majoritárias em todo o País têm ajustado a estratégia de campanha para conquistar essa parcela da população que costuma ser esquecida nos mandatos, mas que nenhum candidato pode se dar ao luxo de ignorar.



FONTE: Folha Vitória


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