Após oito anos em tratamento, capixaba recebe transplante e irá para os Jogos Pan-Americanos
Richard Brandão estava jogando futebol quando viu toda sua realidade mudar, 10 anos atrás, após a pressão arterial subir e ele perder a visão. Ao ser levado para o hospital, o morador de Guarapari, de 28 anos, recebeu uma notícia inesperada: os dois rins estavam parando de funcionar.
Na época, ele estava no último ano do ensino médio e vivia o que considera o auge da juventude, praticando diversos esportes. De uma hora para outra, porém, precisou abandonar a rotina que conhecia e começar um tratamento que duraria oito anos, até o transplante.
Eu não podia mais fazer o que eu fazia, que era jogar bola ou praticar qualquer esporte. Eu gostava demais e, quando fiquei doente, meu mundo caiu.
Richard Brandão, atleta
Durante anos, Richard precisou fazer hemodiálise três vezes por semana, e cada sessão durava cerca de quatro horas. No primeiro ano, ele conta que chegou a se isolar dentro de casa e não queria sair nem para fazer o tratamento.
Foi justamente nesse período que a corrida apareceu como uma forma de reagir. “Eu saí do quarto e fui fazer alguma coisa. Eu acordei cedo e fui correr”, lembra.
Richard recebeu o transplante renal em 17 de março de 2024, no Hospital Meridional Cariacica, encerrando uma espera de anos e abrindo espaço para que retomasse planos que pareciam ter ficado para trás. Entre eles estava o esporte.
Da hemodiálise para as pistas
Depois do transplante, Richard continuou correndo e sua evolução chamou atenção. O capixaba foi procurado pela Liga de Atletas Transplantados do Brasil, que fez o convite para integrar a delegação brasileira nos I Jogos Pan-Americanos para Transplantados, que serão realizados de 21 a 25 de outubro, em Maldonado, no Uruguai.
A competição reúne atletas que passaram por transplantes e também busca chamar atenção para a importância da doação de órgãos.
Agora, ele se prepara para disputar as provas de 100 metros, 200 metros, 400 metros e salto em distância. Como já corria antes, Richard não precisou começar uma rotina completamente nova, mas passou a direcionar os exercícios para as categorias que vai disputar.
Quando em transplantei, não imaginava que um dia poderia competir e, muito menos, representar o Brasil em uma competição internacional.
Richard Brandão, atleta
Atividade física após o transplante
O nefrologista da Rede Meridional, Vinicius Peterle, explica que a atividade física é benéfica de forma geral e também pode fazer parte da rotina de pessoas que passaram por um transplante.
A prática de atividade física depois do transplante é algo muito saudável, como é saudável para qualquer um de nós que não é transplantado. Os estudos mostram uma correlação positiva: aumenta o tempo de sobrevida do órgão transplantado, aumenta a sobrevida da pessoa e diminui a quantidade de intercorrências.
Vinicius Peterle, nefrologista da Rede Meridional

Isso não significa, porém, que todos os transplantados possam iniciar qualquer modalidade ou intensidade de exercício. Segundo o médico, é preciso respeitar o período de recuperação da cirurgia e avaliar outras condições de saúde antes da liberação para a prática.
“Nos primeiros meses pós-transplante, a pessoa talvez não consiga fazer exercício físico. A gente também precisa ter atenção a outras condições de saúde que a pessoa tem, que às vezes restringem alguma atividade específica”, explica.
No caso de quem pretende treinar em nível competitivo, o acompanhamento precisa ser ainda mais individualizado. Richard faz acompanhamento médico, nutricional e com profissional de educação física.
Segundo Peterle, o caso do capixaba também ajuda a combater a ideia de que uma pessoa transplantada necessariamente precisa levar uma vida limitada.
“É importante romper com esses mitos de que o transplantado seria uma pessoa doente ou extremamente vulnerável. Isso não é verdade. É claro que ele precisa manter uma série de cuidados, ter atenção principalmente aos cuidados de saúde e às medicações, mas, correndo tudo como esperado, essas pessoas vão ter uma vida muito próxima da vida normal”, diz.
Apoio para ir à competição internacional
A convocação abriu uma nova etapa na vida de Richard, mas também trouxe um desafio financeiro. O atleta afirma que os custos da viagem estão saindo do próprio bolso e que busca apoiadores para conseguir participar da competição.
Interessados podem entrar em contato com ele por meio do telefone (27) 99842-9274.
É a realização de um sonho e eu estou fazendo de tudo para representar não só o nosso país, mas também todos que esperam ou que já receberam um transplante. Posso dizer que recebi uma segunda vida.
Richard Brandão, atleta
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