Aos 91 anos, atleta capixaba revela que vendeu apartamento para competir no exterior
Aos 91 anos, a capixaba Alda Rodrigues Lima coleciona medalhas conquistadas em competições de atletismo pelo mundo. Para realizar o sonho de disputar campeonatos internacionais, ela tomou uma decisão que mudou sua vida: vendeu um apartamento em Laranjeiras, na Serra, e usou o dinheiro para financiar as viagens.
Nascida em Queimado, na Serra, Alda mora há décadas no Rio de Janeiro. Foi lá que descobriu a paixão pelo esporte, depois dos 70 anos. Desde então, participou de competições em diversos países, conquistou medalhas de ouro, prata e bronze e, mesmo enfrentando limitações físicas, continua nas pistas.
Tenho medalhas de todas as competições internacionais de que participei. Algumas são de ouro, outras de prata ou bronze, mas de todos os países para onde viajei eu trouxe medalhas.
Alda Rodrigues Lima, atleta

Vendeu apartamento para competir no exterior
A ideia de disputar campeonatos internacionais surgiu durante uma conversa com amigos do atletismo. Após um treinamento, o grupo discutia os preparativos para uma viagem à Itália, incluindo os hotéis onde ficariam hospedados. Alda acompanhava a conversa, mas lamentava não ter condições financeiras de participar.
Foi quando um dos colegas lembrou que ela tinha um apartamento em Laranjeiras, na Serra, e perguntou se pretendia morar no imóvel. Como não tinha planos de voltar, Alda aceitou a sugestão de vendê-lo para custear as viagens. Assim que chegou em casa, telefonou para uma sobrinha e pediu que providenciasse a venda.
“Eu ouvia aquela conversa e ficava angustiada, porque queria ir e não podia. Então falei para eles: ‘Poxa, vocês ficam falando disso perto de mim, sabendo que eu não posso viajar’. Foi quando um deles sugeriu que eu vendesse o apartamento”, relembrou.
A primeira viagem foi para a Itália. Depois, Alda competiu quatro vezes nos Estados Unidos e também participou de campeonatos na França, Finlândia e Austrália. Na América do Sul, passou por Chile, Colômbia, Bolívia, Argentina e Peru.
A atleta não soube precisar quantos países visitou nem o número total de medalhas conquistadas. Segundo ela, uma das experiências mais emocionantes é subir ao pódio representando o Brasil, especialmente nas competições em que os vencedores são homenageados com a bandeira e o hino nacional.
Lá fora, eles dão uma importância que emociona. Quando a gente sobe ao pódio, o primeiro colocado recebe a bandeira do país e eles cantam um trecho do hino. É muito emocionante.
Alda Rodrigues Lima, atleta
Apesar das viagens internacionais, Alda conta que conheceu poucos pontos turísticos. Com recursos limitados, precisava economizar para conseguir disputar as provas, deixando os passeios em segundo plano.
A dedicação ao atletismo também exigiu abrir mão de outros gastos e atividades. Para ela, as viagens eram oportunidades de competir e representar o Brasil, e não propriamente de fazer turismo.
“Em todos esses países para onde viajei, quase não passeei. Conheci muito pouca coisa, porque o dinheiro não dava. Eu precisava fazer as contas de tudo”, afirmou.

Começou a praticar esportes depois dos 70 anos
A trajetória esportiva de Alda começou há aproximadamente 20 anos. Até então, sua rotina havia sido dedicada ao trabalho e à criação dos filhos. Depois de se aposentar, ela começou a fazer natação em uma unidade do Sesi, no Rio de Janeiro.
A mudança para o atletismo aconteceu após o convite de um amigo para participar de uma corrida de rua de conscientização sobre o câncer de mama. Alda gostou da experiência e continuou correndo. Mais tarde, passou a treinar em uma pista de atletismo, onde descobriu sua aptidão para as provas de velocidade.
Comecei correndo na rua. Depois fui treinar em uma pista de atletismo e foi lá que me encontrei como atleta. Descobri que era velocista e é isso que sou até hoje.
Alda Rodrigues Lima, atleta
Segundo ela, o esporte trouxe benefícios que vão além das medalhas. Alda afirma que ganhou mais disposição, mobilidade e qualidade de vida, além de fazer amizades e conhecer lugares que antes pareciam distantes de sua realidade.
Hoje, aos 91 anos, completados em setembro, ela continua participando de competições. Mesmo quando pensa em parar, os colegas de equipe a incentivam a seguir e, algumas vezes, avisam que seu nome já foi incluído na inscrição de uma nova prova.
“O esporte mudou tudo na minha vida. Ganhei mais saúde, fiquei mais satisfeita e feliz. Passei a cuidar da minha vida, dos filhos e dos netos com mais facilidade e mobilidade”, contou.

Nascida na Serra, começou a trabalhar aos 15 anos
Muito antes das competições internacionais, Alda viveu a infância em Queimado, no município da Serra, onde cresceu em uma pequena fazenda da família. Estudou na comunidade, depois na sede da Serra e, posteriormente, em Vitória.
Aos 15 anos, começou a trabalhar em um cartório, onde permaneceu durante oito anos. Segundo ela, a decisão foi motivada pelo desejo de contribuir com as despesas da família, já que seus pais eram mais velhos e os irmãos haviam saído de casa.
Quando nasci, meu pai já tinha 60 anos e minha mãe, 40. Então, me senti na obrigação de trabalhar para ajudar. Eu queria contribuir e não ser um peso para eles.
Alda Rodrigues Lima, atleta
Alda se casou em Vitória e depois se mudou para o Rio de Janeiro. O casamento terminou quando estava grávida do segundo filho. Sem familiares por perto, precisou conciliar o trabalho com a criação dos dois meninos.
Na capital fluminense, trabalhou no antigo Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Marítimos (IAPM), que oferecia uma creche para os filhos dos funcionários. Posteriormente, passou a atuar na área administrativa vinculada ao Ministério da Saúde, onde se aposentou.
“Eu comecei a trabalhar no Instituto dos Marítimos, que tinha uma creche muito boa. Meus filhos ficaram lá até os seis anos. Isso me ajudou muito, porque eu precisava trabalhar e cuidar deles”, recordou.

Aos 91 anos, segue competindo apesar das limitações
O fato de ser uma atleta não significa que Alda esteja livre de dificuldades físicas. Ela conta que tem artrose nos dois joelhos e precisa lidar com as limitações provocadas pela condição para continuar participando das provas.
Além das questões de saúde, a atleta destaca os desafios financeiros e a necessidade de manter uma rotina disciplinada de treinamentos. Para ela, a prática esportiva exige dedicação e acompanhamento adequado, especialmente para quem começa depois de muitos anos de sedentarismo.
Não é fácil, porque nem sempre temos dinheiro para nos deslocar e fazer tudo o que é necessário. Mas o sacrifício vale a pena.
Alda Rodrigues Lima, atleta
Mesmo diante das dificuldades, Alda não pretende abandonar definitivamente as pistas. Ela conta que, às vezes, pensa em encerrar a trajetória esportiva, mas acaba aceitando participar de uma nova competição quando recebe o convite dos colegas.
Para quem deseja começar a praticar exercícios na terceira idade, a velocista recomenda respeitar as limitações individuais e buscar orientação profissional. Segundo ela, é importante diferenciar as restrições físicas reais da insegurança de quem acredita que já passou da idade de começar.
“É só começar. É preciso ter vontade, procurar um lugar adequado e alguém que possa orientar. Não é simplesmente sair correndo de qualquer maneira. É importante ter um treinador”, aconselhou.
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