A crise não é política. É semântica.

A percepção de uma crise institucional tem sido amplamente debatida. Contudo, ao observar a superficialidade dos debates públicos, especialmente em redes sociais, no discurso político e em parte da mídia, nota-se que o problema reside na corrosão da linguagem. O que se vivencia não é meramente uma disputa ideológica, mas uma dificuldade crescente de nomear a realidade com precisão. A crise, em sua essência, é semântica.

As raízes históricas desse fenômeno residem no nominalismo de Guilherme de Ockham, filósofo do século XIV. Ockham rompeu com o realismo medieval ao sustentar que os conceitos universais, como “justiça” ou “liberdade”, não possuem existência real fora da mente humana. Para o nominalismo, tais termos são apenas nomes “nomina”, etiquetas convencionais para agrupar objetos individuais. Ao destituir as palavras de uma essência objetiva, permitiu-se que o sentido das coisas passasse a depender da vontade ou da convenção social.

No contexto atual, essa herança manifesta-se de forma degenerada. Se as palavras não possuem um lastro na realidade objetiva, tornam-se instrumentos maleáveis de poder. Em plataformas digitais, grupos em espectros opostos utilizam a mesma terminologia para defender propósitos idênticos ou, inversamente, alteram o contexto de termos consagrados para validar narrativas particulares.  Recentemente, no podcast Flow, durante debate, dois debatedores passaram mais de uma hora discutindo “liberdade de expressão”. Um afirmava que qualquer limitação estatal já configuraria censura. O outro defendia que restrições são necessárias para proteger grupos vulneráveis. Ambos diziam defender a liberdade. Nenhum iniciou o debate definindo o estudo terminológico que entendia por liberdade. Sem explicitação conceitual, a discordância parece genérica e volátil.

Essa afasia semântica produz ruído constante. Palavras tornam-se bandeiras identitárias.  O sentido das palavras é subjetivado ao extremo, a comunicação cessa e o conflito se instala. Se “liberdade” pode significar tanto a ausência de coerção quanto a garantia de benefícios estatais, conforme a conveniência, o debate torna-se um confronto estéril. Essa perda de definição gera um vácuo intelectual preenchido por slogans e defesas apaixonadas de ideias que os próprios interlocutores pouco compreendem.

A crise não nasce da divergência entre posições políticas. Nasce da incapacidade de definir aquilo que se defende. Superar a paralisia do debate é assumir o compromisso de recuperar a precisão conceitual. A clareza das ideias exige a clareza dos nomes. Sem o reconhecimento de que as palavras devem corresponder a princípios estáveis, os debates ideológicos continuam girando em torno de termos vazios, incapazes de sustentar um verdadeiro posicionamento. Discute-se não o que as coisas são, mas o que se deseja que pareçam ser. A restauração da ordem social passa, inevitavelmente, pela restauração da semântica.



FONTE: Folha Vitória


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