850 km em sete dias: brasileira de 55 anos quebra recorde mundial na esteira
Imagine correr e caminhar durante sete dias praticamente sem parar. Agora imagine precisar comer, beber, dormir e manter o organismo funcionando enquanto tudo isso acontece.
A ultramaratonista Débora Simas, de 55 anos, enfrentou esse desafio em Florianópolis. A catarinense subiu em uma esteira instalada no Beiramar Shopping para tentar quebrar um recorde mundial.
A marca pertencia à neozelandesa Emma Timmis, que havia percorrido 846,16 quilômetros em 168 horas. Débora ultrapassou a distância e chegou aos 850 quilômetros.
O feito impressiona pelos números. Porém, os bastidores mostram que completar um desafio como esse depende de muito mais do que resistência física.
Durante sete dias, a equipe precisou controlar treinamento, descanso, hidratação, alimentação e respostas do organismo. E a estratégia nutricional precisou mudar conforme o cansaço aumentava.
Comer mais nem sempre é a melhor estratégia
É fácil imaginar que alguém se exercitando durante sete dias deveria simplesmente comer o máximo possível. Afinal, o gasto energético de um desafio como esse é enorme.
Na prática, porém, grandes volumes de comida de uma só vez podem dificultar a digestão. O exercício prolongado também pode favorecer náuseas, estufamento, refluxo e falta de apetite.
Por isso, não bastava calcular quanto Débora precisava consumir. Era necessário pensar no esvaziamento gástrico e na quantidade que ela conseguiria tolerar ao longo do dia.
A estratégia elaborada pela nutricionista Janaína Porto Alegre começou com três refeições maiores e quatro refeições intermediárias. Entre elas, Débora também podia consumir pequenas porções.
Paçoca, gel de carboidrato, bananinha e arroz-doce estavam entre essas opções. O objetivo era manter uma oferta constante de energia sem sobrecarregar o sistema gastrointestinal.
Em vez de tentar consumir enormes quantidades em poucas refeições, a estratégia distribuía os alimentos conforme o organismo conseguia receber, digerir e absorver.
Teve até risoto em cima da esteira
Grande parte da alimentação aconteceu enquanto Débora continuava caminhando. Em determinado momento, por exemplo, ela comeu risoto de arroz integral, frango e cenoura na esteira.
As principais refeições foram preparadas previamente por uma cozinha, que seguiu as quantidades, os ingredientes, os temperos e as formas de preparo definidos para Débora.
A equipe congelou as refeições e levou tudo ao shopping, descongelando as porções gradualmente conforme a necessidade durante os sete dias de desafio.
Nos intervalos, Débora consumia preparações menores, como sanduíche com geleia e banana com granola, além de alimentos que já conhecia e tolerava bem.
Esse detalhe é importante. Uma prova extrema não é o momento ideal para testar um alimento, suplemento ou estratégia pela primeira vez.
O treinamento prepara músculos e sistema cardiovascular para o esforço, mas também pode adaptar o trato gastrointestinal para receber nutrientes durante exercícios prolongados.
Nem toda ultramaratona exige a mesma estratégia
Apesar da duração extrema, Débora não passou sete dias correndo em alta intensidade. Alternar corrida e caminhada era fundamental para conseguir sustentar tantas horas de exercício.
Esse detalhe também interfere na estratégia nutricional. Intensidade, duração, temperatura, taxa de suor e tolerância gastrointestinal modificam as necessidades de cada atleta.
O ambiente também era diferente daquele encontrado em uma ultramaratona ao ar livre. Dentro do shopping, Débora permaneceu em uma temperatura relativamente controlada.
Por isso, não existe uma fórmula nutricional que possa ser aplicada igualmente a qualquer prova. A estratégia precisa considerar as características do exercício e do atleta.
No quarto dia, até mastigar ficou difícil
Mesmo com todo o planejamento prévio, seria impossível prever exatamente como o organismo responderia após três, quatro ou cinco dias praticamente ininterruptos de esforço.
No quarto dia, o cansaço acumulado começou a dificultar até mesmo a mastigação dos alimentos sólidos. A equipe precisou adaptar novamente a estratégia.
Algumas das refeições preparadas anteriormente passaram a ser liquidificadas. Assim, Débora recebia os nutrientes planejados em uma consistência mais fácil de consumir.
No quinto dia, surgiu um novo desafio. As três refeições maiores já não apresentavam a mesma tolerância e precisaram ser ainda mais fracionadas.
A atleta passou a receber pequenas quantidades aproximadamente a cada 20 minutos. A equipe alternava alimentos líquidos, pastosos e sólidos conforme sua tolerância.
Esse talvez seja um dos pontos mais interessantes do desafio. O planejamento nutricional existia, mas não permaneceu engessado durante os sete dias.
Conforme o corpo dava novos sinais, a equipe modificava a estratégia.
Carboidratos, eletrólitos e hidratação
Além da comida, suplementos também fizeram parte do planejamento. Géis ajudaram na oferta energética, principalmente por fornecer carboidratos de maneira prática durante o exercício.
Eletrólitos também foram utilizados durante o desafio. Em esforços tão prolongados, a hidratação precisa acompanhar tanto a ingestão de líquidos quanto as perdas pelo suor.
A equipe monitorava, inclusive, a coloração da urina de Débora. Esse parâmetro pode ajudar na avaliação do estado de hidratação quando analisado junto a outros sinais.
Até o funcionamento intestinal era acompanhado. Débora manteve evacuações diárias, algo especialmente relevante diante do enorme volume de horas em movimento.
O peso corporal também tinha uma importância adicional. Pelas regras da tentativa, Débora não poderia perder mais de três quilos durante o desafio.
Portanto, manter a ingestão adequada não estava relacionado apenas à performance. Também era necessário para que ela permanecesse dentro dos critérios da prova.
A estratégia mudou novamente no quinto dia
Cafeína e taurina também entraram no planejamento, mas não foram utilizadas da mesma maneira desde o primeiro dia.
A equipe introduziu essas estratégias principalmente a partir do quinto dia, quando o desgaste acumulado se tornou ainda mais importante.
Isso mostra que suplementação esportiva não significa simplesmente utilizar todos os recursos disponíveis. O momento de introduzir cada estratégia também pode fazer diferença.
Em desafios dessa duração, as necessidades mudam constantemente. O problema encontrado nas primeiras horas pode ser completamente diferente daquele enfrentado após cinco dias.
Por isso, acompanhar a atleta em tempo real era tão importante quanto elaborar todo o planejamento antes da largada.
Um recorde construído muito antes dos 850 quilômetros
É tentador olhar para um feito como esse e procurar o alimento, suplemento ou estratégia responsável pelo resultado. Mas nenhum deles explica sozinho o recorde.
Os 850 quilômetros começaram a ser construídos muito antes daquela semana. Débora acumula anos de treinamento e experiência em provas de longa duração.
Em 2019, ela já havia enfrentado um desafio semelhante. Na ocasião, percorreu mais de 800 quilômetros durante sete dias em uma esteira.
Experiências anteriores ajudam o atleta a conhecer seus limites, testar estratégias e entender como o organismo responde quando o cansaço começa a se acumular.
Além disso, um desafio dessa magnitude depende de uma equipe multidisciplinar. Nutrição, treinamento, medicina e fisioterapia fazem parte dos bastidores de um resultado extremo.
A estratégia nutricional também mostrou que planejamento não significa seguir um roteiro imutável. Pelo contrário, adaptar-se foi uma das partes mais importantes do processo.
Débora começou o desafio com refeições completas, mas a estratégia precisou acompanhar o avanço do cansaço. A dificuldade para mastigar exigiu mudanças na consistência dos alimentos. Mais tarde, a menor tolerância a grandes volumes levou ao fracionamento das refeições em porções menores e mais frequentes.
No final, um recorde mundial de 850 quilômetros não é construído apenas pela capacidade de continuar correndo.
É construído por anos de preparação e por uma equipe capaz de resolver cada novo problema antes que ele obrigue a atleta a parar.
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